quinta-feira, 10 de maio de 2018

A agente infiltrada no esquema russo

O que poderiam dizer as cartas à ela?

1) carta central: O 6 de Paus

A carta Seis de Paus retrata Jasão vitorioso após a sua luta com o dragão. O herói levanta o Velocino de Ouro em triunfo. Atrás dele, seis dos seus amigos-heróis estão festejando, cada um segurando uma tocha acesa.

O Seis de Paus representa uma experiência de triunfo, de reconhecimento e de aclamação pública. A luta com o dragão já aconte­ceu e Jasão fez jus à sua recompensa; o Velocino está em suas mãos e seus amigos levantam suas tochas para honrá-lo em reconheci­mento. Essa carta representa um momento inebriante para o indiví­duo que se esforçou para expressar uma nova ideia ou uma visão criativa para as outras pessoas, pois é o momento em que somos reco­nhecidos pela coletividade por nossos esforços. O empreendimento criativo foi aprovado não somente pelos nossos entes queridos, mas pelo mundo exterior, que na carta do Cinco de Paus apareceu, inicial­mente, como o terrível dragão-terra que parecia frustrar todos os es­forços.

O estágio, um tanto inebriante, refletido pelo Seis de Paus pode assumir muitas formas, de acordo com o nível do objetivo e das aspi­rações do indivíduo. O atleta que treinou e se preparou durante can­sativos meses e até anos sabe disso quando vence uma competição, assim como o indivíduo que almeja uma promoção também o reco­nhece quando, finalmente, uma nova posição lhe é oferecida. O es­critor aprecia-o quando o seu livro é publicado e aclamado, e assim também o estudante, quando finalmente recebe o seu diploma. Inde­pendentemente da dimensão, a meta aqui é alcançada e reconhecida pelos outros. Portanto, o Seis de Paus é uma das cartas dos Arcanos Menores que mais proporciona satisfação individual, pois significa a validação pública de uma visão criativa que se iniciou em meio à ansiedade e à incerteza.

Mas até o Seis de Paus deve ceder o seu lugar para a carta seguinte, pois Jasão ainda não levou o Velocino de volta para Iolkos. O reconhecimento público provoca os seus próprios dilemas, apesar de representar um pico na vida criativa, pois a imaginação é fértil, e novos desafios - de forma particular a inveja e o sentido de compe­tição - podem surgir no momento do triunfo.

No sentido divinatório, o Seis de Paus prevê a aceitação pública e o reconhecimento de alguma espécie. Isso pode assumir a forma de uma promoção, uma qualificação ou o reconhecimento de algum tra­balho criativo.


2) carta cruzada: O Diabo

A carta do Diabo retrata um Sátiro, uma criatura metade homem e metade bode, dançando à música de uma siringe (flauta de sete tubos) que ele segura em sua mão esquerda. Com a mão direita, ele segura duas correntes, cada uma presa a um colar ao redor do pescoço de uma figura humana nua. As figuras - um homem e uma mulher - têm pequenos chifres como aqueles do Sátiro. Apesar de suas mãos e pernas estarem livres para dançar, eles estão presos às suas correntes de medo e de fascinação pela música. Ao redor, aparecem as paredes escuras da caverna.

Aqui encontramos o grande deus Pan que os gregos veneravam como o Grande Todo. Na Mitologia, Pan era filho de Hermes e da ninfa Dríope. Quando nasceu, ele era tão feio - com chifres, barba, cauda e patas de bode - que a sua mãe fugiu apavorada e Hermes o levou para o Olimpo para entreter os deuses. Pan assombrava os bosques e os pastos da Arcádia, e personificava o espírito fértil e fálico da natureza selvagem e indomada. Ocasionalmente ele podia ser amigável com os homens, vigiando seus rebanhos, gado e col­meias. Também participava das festas das ninfas das montanhas e ajudava os caçadores a encontrarem suas presas. Em certa ocasião, ele perseguiu a casta ninfa Siringe até o rio Ladon, onde ela se trans­formou em um feixe de caniços para fugir dos indesejáveis abraços peludos. Como não podia individualizá-la dos outros, ele cortou vá­rios caniços, dos quais fez uma siringe ou flauta de Pan.

Do nome Pan derivamos a palavra "pânico", afinal ele se divertia provocando pequenos sustos aos viajantes solitários. Ele era despre­zado pelos outros deuses que, no entanto, exploravam os seus pode­res. Apolo, o deus-Sol, adulando-o, conseguiu dele a arte da profe­cia; Hermes copiou uma flauta que ele havia deixado cair, declarou ser sua a invenção e vendeu-a a Apolo. E foi assim que o deus-Sol recebeu ilicitamente a sua música e o seu dom da profecia do deus da natureza com aspecto de bode, feio e indomado.

No sentido interior, Pan, o Diabo, é a imagem da sujeição ao mais rude e instintivo aspecto da natureza humana. Como o deus era ve­nerado pelo medo, em cavernas e grutas, sua imagem dentro de nós sugere algo que tanto tememos quanto nos fascinam os rudes e pri­mitivos impulsos sexuais que consideramos "maus" em razão de sua natureza compulsiva.

Desde o início da Era Cristã, o deus Pan foi estabelecido como a figura do Diabo, completo com seus chifres e trejeito irónico, e des­prezado pelas pessoas "espirituais", como Apolo o desprezou, na Mitologia grega. Plutarco conta que, durante o domínio do imperador Tibério, um marinheiro que passava perto das Ilhas Equinades, no Mar Egeu, ouviu uma voz misteriosa chamando-o três vezes, dizen­do: "Quando chegar a Palodes, proclame que o deus Pan está mor­to". Isso ocorria no exato momento em que o Cristianismo* nascia na Judeia.

Mas a presença dessa carta entre os Arcanos Maiores do Tarô sugere que Pan não morrera, mas havia sido relegado aos recessos mais profundos do inconsciente, representando tudo aquilo que te­memos, odiamos, desprezamos e, no entanto, nos mantém presos pelo próprio medo e desgosto.

O problema da vergonha do corpo e dos impulsos sexuais, parti­cularmente os que a psicanálise tanto fez para trazer à luz neste século - fantasias de incesto, fascinação pelas funções corporais e excreções, o sentimento de ser sujo e mau, peludo, feio e inferior -, são os que Pan, o Diabo, personifica. Até o homem, ou a mulher, mais "liberado" sexualmente pode sentir essa vergonha secreta a respeito de seu corpo. Podemos sentir alguma nobreza e romantismo no leão furioso na carta da Força ou nos obstinados cavalos da carta do Carro. Contudo, é mais difícil perceber nobreza em Pan. Mas, na Mitologia, Pan não era ruim, ele só era indomado, amoral e natural. A paralisia dos humanos que os leva ao terror e à fascinação cria o problema. A carta do Diabo implica bloqueios e inibições, geralmente sexuais, que surgem pela falta de compreensão do deus. Apesar de feio, ele é o Grande Todo - a vida nua e crua do próprio corpo, amoral e rude, mas assim mesmo um deus. A energia empregada em manter o Diabo em sua caverna, vergonhoso e oculto, é energia per­dida para a personalidade, mas que pode ser liberada com um efeito imensamente poderoso se tivermos a coragem de encarar Pan.

Por conseguinte, o Louco deve aprender a enfrentar com humil­dade seus próprios aspectos mais inferiores e mais vergonhosos, ou permanecerá eternamente preso aos seus próprios medos. Então, para poder esconder esse segredo vergonhoso, ele deve pretender ser superior e, assim, projeta a sua parte animal em outras pessoas, levando ao preconceito, à inveja e até a perseguição de indivíduos e de raças que, para ele, são "maus".

No sentido divinatório, a carta de Pan, o Diabo, implica a necessi­dade de um confronto com tudo o que na personalidade seja sombrio, vergonhoso e inferior. O Louco deve libertar-se adquirindo conheci­mento e, por meio da aceitação honesta e humilde de Pan, deve liberar o poder criativo que está acorrentado ao seu próprio pânico e autodesprezo. E, assim, ele chega ao coração do Labirinto e enfren­ta a sua própria escuridão nas sombras essenciais de seu corpo para tornar-se o que ele sempre foi - simplesmente natural.


3) carta de cabeça: A Lua

A carta da Lua retrata uma misteriosa figura feminina com três rostos, coroada com um diadema da Lua em suas três fases. O seu cabelo é prateado e ela veste uma longa túnica que flui em uma poça de água a seus pés. A sua frente, há um cão de três cabeças e na poça um caranguejo procura sair da água. Atrás dela, o céu é escuro e iluminado somente pela luminescência de sua coroa.

Aqui encontramos Hécate, a antiga deusa do Submundo, regente da Lua, da magia e dos feitiços. Na Mitologia, Hécate era, às vezes, confundida com Artemis, a deusa da Lua, uma divindade bem mais antiga e poderosa tanto no céu quanto embaixo da terra. Filha de Zeus c Hera, incorreu na ira da mãe ao roubar-lhe um pote de ruge.

Ela fugiu para a Terra c escondcu-se na casa de uma mulher que estava para dar à luz. A experiência com o nascimento tornou-a im­pura e, como consequência, foi levada ao Submundo para que a mancha fosse lavada. Ao contrário, ela se tornou uma das soberanas do Submundo e veio a ser chamada a Rainha Invencível, presidindo as purificações e as expiações. Como deusa dos feitiços, ela enviava demónios à Terra para atormentar os homens em seus sonhos; era acompanhada de Cérbero, o guardião de três cabeças do portal do Submundo, que era a sua forma anima! e seu espírito familiar. Os lugares que ela mais assombrava eram as encruzilhadas, tumbas e cenas de crimes; por isso é que imagens sagradas eram erigidas nas encruzilhadas e veneradas na véspera da lua cheia.

O próprio Zeus honrou Hécate de tal forma que nunca lhe negou o antigo poder que sempre possuiu: de conceder ou de negar os de­sejos dos mortais. Suas companheiras no Submundo eram as três Erínias ou Fúrias, que castigavam as ofensas contra a natureza e representavam, de maneira ameaçadora, as três Moiras ou o Desti­no. E, assim, Hécate é uma das mais antigas imagens da Mitologia, presidindo a magia, o nascimento, a morte, o Submundo e o destino.

No sentido interior, Hécate, a deusa da Lua, é uma imagem das profundezas misteriosas do inconsciente. Já nos deparamos com esse estranho e fugaz reino em duas outras cartas dos Arcanos Maiores: a Sacerdotisa e a Roda da Fortuna. Essas três cartas estão ligadas em significado e representam uma progressão no aprofundamento da compreensão e da experiência do mundo do inconsciente.

Por meio de Perséfone, a Sacerdotisa, o Louco conscientizou-se de uma intuição de suas profundezas pessoais, um "eu" secreto por Irás da vida cotidiana. E, por meio das Moiras que presidem a Roda da For­tuna, ele experimentou o poder do Destino por intermédio de mudan­ças bruscas que revelam uma lei invisível ou um padrão intencional interior. Na carta da Lua, encontramos na imagem de Hécate o oceano da grande coletividade do inconsciente, do qual não somente o indiví­duo, mas a própria vida emergiu.

Hécale é muito mais do que um retrato das profundezas pessoais. Ela encarna o princípio feminino da própria vida e os três rostos, as três fases da Lua, refictem o seu poder multifacetado sobre o Céu, a Terra e o Submundo. Em lermos psicológicos, é desse reino oceânico da imaginação humana que os grandes mitos, os símbolos religiosos e as obras de arte sempre nasceram. E um mundo caótico, confuso c sem limites, do qual o indivíduo com sua jornada pessoal e a sua busca do "eu" é somente uma pequena parte.

O encontro com Hécate, a deusa da Lua, é uma confrontação com o mundo transpessoal no qual os limites individuais se dissolvem e o sentido de direção e do ego se perdem. É como se devêssemos esperar, submersos nas águas desse mundo, enquanto os novos po­tenciais surgem para, eventualmente, tornar-se o nosso futuro. Mas as águas escuras do inconsciente coletivo contêm tanto o positivo quanto o negativo e, às vezes, é difícil distinguir seus movimentos alternados de loucura e de delírio. Ele pode ser um mundo apavoran­te c cheio de ansiedade, pois viver no reino presidido por Hécate significa viver sem conhecimento e sem compreensão. Algo pas­sou por nós e levou consigo o passado, preparando o caminho para o futuro; mas devemos esperar, assim como o feto espera no útero da mãe.

O único caminho para o reino de Hécate é o "Caminho Real" dos sonhos que, como o caranguejo, nos atormenta com um vislumbre c depois volta para a água. A carta da Lua é uma carta de gestação cheia de confusão, ansiedade e perplexidade. Temos apenas o mun­do dos sonhos e a Estrela da Esperança para nos guiar, pois essa imagem do feminino não é pessoal como a da Sacerdotisa. E vaga, ilusória, impessoal e incorpora os humores alternados e a confusão. Hécate não pode ser realmente compreendida, pois é a deusa da magia e inicia o Louco em um mundo maior do que ele próprio, aque­la água primordial que dá origem à vida.

No sentido divinatório, a carta de Hécate, a deusa da Lua, prevê um período de confusão, flutuação e incerteza. Estamos presos ao inconsciente e somente podemos esperar e agarrarmo-nos às imagens incertas dos sonhos e ao sentido de esperança e de fé. Assim, o Louco aguarda o seu renascimento nas águas de um útero maior, apenas consciente de que a sua jornada de desenvolvimento pessoal é tão-somente uma pequena fração de uma vida ampla e desconheci­da que abrange milénios, seguindo eternamente fértil, mas incompleta.


4) base da questão: O Cavaleiro de Copas

A carta do Cavaleiro de Copas retrata um lindo jovem de pele clara, cabelos pretos e olhos profundos, montado em um elegante cavalo branco. Ele traja uma túnica roxa e uma armadura prateada toda escamada, e sobre a cabeça porta um elmo com um enfeite em formato de cauda de peixe. Ele conduz o seu cavalo elegantemente ao longo de um riacho borbulhante no qual os peixes saltam da água. Ao seu redor, um cenário romântico de bosques e colinas verdes e, ao longe, o. mar pode ser visto sob um céu azul-claro. Com a sua mão esquerda, ele segura uma taça dourada.

Na carta do Cavaleiro de Copas, deparamo-nos com a dimensão volátil, sensível e mutável do elemento água que, como o riacho, está cheio de vida e em movimento constante. Essa é a representação do herói mitológico Perseu, motivado em todas as suas aventuras pelo amor às mulheres e que, em suas jornadas, deve enfrentar as várias facetas do feminino, tanto obscuras quanto claras, antes de poder reunir-se com o seu amor. Perseu era filho de Zeus e de uma mulher mortal chamada Danae, para quem o deus apareceu em uma chuva de ouro. O pai de Danae, Acrísio, havia sido avisado pelo oráculo de Delfos que sua filha daria à luz um filho que o mataria. Para que isso fosse evitado, ele encerrou Danae e o filho em uma arca e jogou-os ao mar. Protegidos pelas divindades da água, eles foram levados às margens de Sérifos e para a proteção do rei Polidetes. O rei apaixo-nou-se por Danae e a perseguiu durante todos os anos da infância e adolescência de Perseu. Finalmente, Polidetes resolveu matar Perseu porque o jovem era contrário a seu casamento, acreditando que a sua mãe merecia algo melhor. Portanto, o rei enviou o jovem na aparente missão impossível de trazer-lhe a cabeça da terrível Medusa.

Em todo o seu trajeto, Perseu foi protegido pelas deusas. As Gréias, três bruxas que compartilhavam de um único olho, conheciam os segredos do futuro e disseram-lhe onde encontrar Medusa; Atena armou-o com um escudo mágico e foi dessa maneira que o jovem conseguiu matar a górgona, olhando o seu reflexo no escudo espelhado, a fim de proteger sua mãe. Ele levou consigo a cabeça da Medusa e em seu caminho de volta para Sérifos passou pela Etiópia, onde sal­vou a linda Andrômeda das garras de um monstro marinho. Ele ma­tou o monstro, libertou-a e casou-se com a jovem. Ele então voltou para Sérifos e matou Polidetes que, entrementes, tentara seduzir Danae. Isso feito, juntamente com sua mãe e sua esposa, Perseu empreendeu o caminho de volta para o lugar de seu nascimento onde Acrísio, o seu avô, tentara matá-lo.

Apesar de não procurar vingar-se dele deliberadamente, ele acabou matando-o acidentalmente, tor-nando-se, dessa forma, rei de Argos. Mas o lugar era repleto de memórias tristes então decidiu transferir-se para Tirinto, onde fun­dou uma gloriosa dinastia.

Perseu, o Cavaleiro de Copas, é a imagem do verdadeiro espírito romântico, o herói das mulheres em dificuldades, o adorador do amor, da beleza e da verdade, e o defensor dos altos ideais que busca incessantemente o amor perfeito que somente existe no espírito e que sempre parece estar muito próximo, no ser amado seguinte. O espírito romântico do Cavaleiro de Copas incorpora tudo o que é gentil, idealista e bom; não se trata de uma personalidade fraca, ao contrário, ele é capaz de sacrificar tudo em nome de seu ideal ou do ser amado.

Em certo sentido, essa é a imagem do estado de "estar apaixona­do", uma experiência que todo realista presume que, com a familia­ridade do casamento, com os filhos e as obrigações familiares, acabe morrendo, mas que todo romântico acredita que possa e deva perdu­rar para sempre. Quando isso não ocorre, o Cavaleiro de Copas. pode seguir em frente, buscando ainda a derradeira experiência do amor sagrado.

É claro que a santidade do Cavaleiro de Copas não exclui o sexo, mas os relacionamentos sexuais para essa figura devem necessaria­mente estar associados ao amor e ao êxtase espiritual. A "mera" satisfação física não lhe interessa. Historicamente, os ideais do amor romântico que floresceram na Idade Média refletem o espírito do Ca­valeiro de Copas. O jovem cavaleiro sempre adorava a sua amada de longe; ele não a contagiaria com seus desejos carnais, mas lhe escre­veria poesias e, muitas vezes, dedicaria a sua vida para protegê-la.

Perseu é diferente dos outros heróis em virtude, justamente, desse alto idealismo e veneração pelas mulheres. Diferentemente das figuras como Héracles que enfrenta seus desafios porque tenta expiar um pecado ou como Teseu que os enfrenta por serem excitantes, Perseu segue o seu destino pelo amor, principalmente começando pelo amor de sua mãe. Essa qualidade de venerar e de idealizar a mãe é característica do Cavaleiro de Copas, pois, apesar de sua força, ele se ajoelha aos pés de uma rainha uma mulher de maior poder do que ele.

Muitas vezes, a qualidade do amor representado pelo Cavaleiro de Copas contém esse elemento de adoração por uma pessoa diante da qual nos sentimos um tanto indignos - ou por uma pessoa que já esteja casada. Esse ainda não é um amor entre iguais, que encontra­remos mais adiante na Rainha e no Rei de Copas. Mas, à sua manei­ra, é amor e não deveria ser ridicularizado como adolescente ou ima­turo. Sem o Cavaleiro de Copas, viveríamos em um mundo insípido e desprovido de brilho.

Quando o Cavaleiro de Copas aparece em uma abertura de car­tas, indica que chegou o momento de o indivíduo experimentar essa dimensão inebriante e romântica do amor. Frequentemente, o Cava­leiro prevê uma proposta de casamento ou a experiência de uma paixão. Em outro nível, às vezes ele implica uma proposta artística, um relacionamento diferente, não menos exaltado e idealista. Ele ainda pode entrar na vida de um indivíduo como um jovem poético e sensível, um arauto do nosso próprio romantismo emergente.


5) influências do passado: O 4 de Espadas

A carta Quatro de Espadas retrata Crestes no exílio, em Fócida. Ele está sentado tranquilamente no chão contemplando quatro espadas que formam um padrão à sua frente.
Atrás dele, um céu pálido e calmo com pequenas nuvens e um cenário de picos nevados.
O Quatro de Espadas reflete um período calmo de retiro e de contemplação.

Aqui podemos ver Orestes em seu exílio. Ele ainda não recebeu a ordem do deus Apolo e, portanto, está em paz, apesar de não lhe ser permitido voltar para casa. O Quatro de Espadas sugere um período de introversão e de reflexão, de recuperação emocional após o surgimento do conflito no Três de Espadas. O ve­neno foi liberado e agora existe a oportunidade para refletir sobre o que aconteceu. Esse é um período de preparação que precede a tarefa de praticar as mudanças necessárias à vida como resultado do conflito. Há um incremento de força, um controle das reservas internas em uma situação de calma e de introspecção.

Procuramos instintivamente esse lugar de quietude depois de um evento turbulento e penoso em nossas vidas. O indivíduo que passou pela separação ou pelo divórcio, ou até por uma discussão exacerba­da, frequentemente precisa de um tempo sozinho para analisar o padrão do que aconteceu; isso também ocorre com a pessoa sobre­carregada ou aquela que foi demitida de seu trabalho, ou se separou de um amigo ou de um relacionamento amoroso. Frequentemente não reconhecemos o valor desse período de quietude e nos precipita­mos e procuramos cercar-nos de pessoas que farão com que nos sintamos melhor e que nos ajudem a esquecer o que aconteceu. Mas o exílio de Orcstes é imposto e, de certa maneira, somos forçados à introversão pela descoberta de que essa precipitação nervosa não cura absolutamente nada.

Muitas vezes isso piora a nossa situação, até reconhecermos a necessidade do silêncio e da solidão antes de voltarmos à vida novamente. Essa reflexão pode revelar o significa­do que fundamenta a separação ou o conflito, porque qualquer difi­culdade refletida pelo naipe de Espadas inevitavelmente apontará para algum estágio do passado no qual um novo conceito da vida começou a surgir e está desequilibrando todos os nossos padrões preexistentes da vida.

No sentido divinatório, o Quatro de Espadas anuncia um período de recuperação silenciosa e de introversão, no qual o indivíduo pode armazenar energia preparando-se para maiores esforços. Quando o Quatro de Espadas aparece em uma abertura de cartas, talvez seja melhor aceitar a solidão ou o retiro e não procurar preencher o tem­po com atividades, pois alguma quietude é necessária para controlar os pensamentos c organizar a própria vida.


6) influências do futuro: O Cavaleiro de Ouros

A carta do Cavaleiro de Ouros retrata um jovem forte de cabelos castanhos, montado em um grande cavalo marrom. Ele veste uma túnica verde-limão, uma armadura e um elmo em couro marrom. Em sua mão direita ele segura um pentáculo dourado e, em sua esquerda, um feixe de trigo. Ao seu redor, ovelhas espalhadas em grandes pastos verdejantes e um pequeno bosque de oliveiras com colmeias. Acima dele, um céu de azul-brilhante. Na carta do Cavaleiro de Ouros deparamo-nos com a dimensão laboriosa, versátil e mutável do elemento Terra que está cm constante movimento. Ele é representado pela figura mitológica de Aristeu, chamado de "Guardião dos Rebanhos".

Aristeu era filho do deus-Sol Apolo e de uma mortal chamada Cirene. Ainda criança, ele foi entregue à Mãe-Terra, que o alimentou com néctar e ambrósia. As dríades ou três ninfas ensinaram Aristeu como coagular o leite para fazer queijo, construir colmeias e fazer a oliveira produzir a azeitona cultivada. Ele ensinou essas artes úteis às pessoas enquanto jovem ainda, viajando incessantemente pela África do Norte e Grécia, e angariando honras em seu caminho.

Quando Aristeu alcançou a maturidade, as Musas lhe ensinaram as artes da cura e da profecia, e o encarregaram de vigiar suas ovelhas que pastavam na Planície de Ftia. Foi ali que ele aperfeiçoou a arte da caça. Um dia Aristeu consultou o oráculo de Delfos, de seu pai Apolo, que lhe disse para visitar a Ilha de Keas (atual Zea ou Tzia), onde ele seria muito prestigiado. Embarcando imediatamente, Aristeu soube que uma praga havia atingido os ilhéus, pelo fato de criminosos secretos haverem se infiltrado entre eles. Aristeu condenou à morte os criminosos e a praga foi eliminada. Os keanos cumularam-no de gratidão. Ele então visitou a Arcádia e mais tarde a cidade de Tempe, na Tessália, onde as suas abelhas começaram a morrer e ele foi avisado por sua mãe a visitar o velho deus marinho Proteu, que era profeta, e forçá-lo a explicar o motivo da catástrofe. Aristeu saiu à sua procura e, encontrando-o, capturou-o. Forçado a responder, Proteu disse que a doença das abelhas foi causada por um infeliz episódio amoroso que resultou na morte acidental da mulher.

Em vista disso, Aristeu estava sendo castigado pelos deuses. Como reparação, ele ofereceu vários animais em sacrifício às divindades ofendidas, e das carcaças desses animais surgiu um enxame de abelhas que ele capturou e colocou em suas colmeias. Então, continuou suas viagens para a Líbia, dali para a Sardenha e, finalmente, para a Sicília. Depois se dirigiu para a Trácia, ainda irrequieto e em busca de outras tarefas. E, finalmente, fundou uma cidade com o seu nome, onde morreu respeitado por sua sabedoria. Aristeu, o Cavaleiro de Ouros, é a imagem da capacidade humana pelo trabalho e pelo serviço diligente. Ele não é realmente um herói, pois não enfrenta dragões ou missões perigosas, e o seu maior desafio é a cura de abelhas doentes. Mas, assim mesmo, ele é uma figura poderosa e criativa. A personalidade de Aristeu é aquela do amante do campo e amigo dos animais e das criaturas selvagens, considerando que todo trabalho é importante, desde que sirva a vida da Natureza. Apesar da limitação de seus objetivos, Aristeu nunca pôde ser acusado do grandioso orgulho que aflige tantos heróis gregos e que é a causa tanto de sua glória quanto de sua queda.

Ele é bondoso e confiável, com vontade de trabalhar com afinco nos assuntos que lhe dizem respeito.Apesar de quase todas as figuras da mitologia grega serem culpadas de estupro, sedução, assassinato ou outro crime qualquer (psicopatas?), é peculiar o fato de Aristeu aceitar de boa vontade uma missão cansativa e detalhada, cumprindo-a impecavelmente a fim de beneficiar algumas abelhas.

Aristeu representa o nosso lado humilde o suficiente para relacionar-se com as formas mais humildes da vida e que está sempre pronto a aprender mais sobre as facetas variadas e complexas da Natureza. O Cavaleiro de Ouros não é fascinante, mas é capaz de satisfação, porque as suas realizações são sempre cingidas de realismo e de objetivos humildes. Essa é a qualidade que nos permite aceitar de bom grado a tarefa que pode ser aborrecida e que oferece muito trabalho. Ele desempenha criteriosamente as tarefas da vida cotidiana. Aristeu não tem nenhuma pretensão à divindade e, no entanto, é filho de um deus e, depois de sua morte, ele foi venerado como divino.

No sentido divinatório, quando o Rei de Ouros aparece em uma abertura de cartas, chegou o momento de o indivíduo desenvolver a dimensão da personalidade que está confortável e firmemente ancorada nas tarefas cotidianas da vida. O Cavaleiro de Ouros pode entrar em nossa vida como um jovem trabalhador, humilde e gentil, faltando-lhe talvez imaginação, mas rico nas qualidades de confiabilidade e gentileza. Se essa pessoa entrar em nossa esfera de relacionamentos, isso pode ser interpretado como uma oportunidade para aprender mais a respeito desse nosso lado pelo cataclismo de outra pessoa.


7) influências do presente: O 9 de Ouros

A carta Nove de Ouros retrata Dédalo com suas mãos cruzadas em uma postura e sorriso de satisfação. Ele abandonou a sua túnica ocre e avental de couro e agora veste um traje ocre borda¬do a ouro; em sua cabeça, uma coroa de louros. Aos seus lados, vinhas carregadas de cachos de uva sobem por uma treliça e, mais distante, um cenário de montanhas verdejantes e um calmo mar azul. Junto ao artesão, amontoados no chão, nove pentáculos dourados. O Nove de Ouros retrata um estado de grande auto-satisfação. Dédalo arriscou-se em um empreendimento perigoso, trabalhou com afinco para desenvolvê-lo, assumiu os riscos, sofreu os consequentes perigos e agora admira as recompensas que dignamente mereceu.

A importância e a diferença do Nove de Ouros são que o prazer do artesão não se refere ao aplauso e ao reconhecimento público. Essa é a satisfação solitária da realização de coisas boas, o prazer da auto-suficiência e a realização decorrente dos próprios esforços. Dédalo pode dizer honestamente "eu consegui à minha maneira", pois sua adquirida riqueza é realmente um símbolo do sentido de auto-estima que somente pode decorrer do interior do indivíduo. O artesão fez as pazes com o seu passado obscuro e com seu período de perda e de exílio; ele também conseguiu enganar o rei Minos que o perseguiu em razão da sua decisão de ajudar a rainha e seguir a vontade do deus Poseidon.

O perigo agora ficou no passado e Dédalo pode sentir satisfação pelos seus esforços e sua astúcia que asseguraram a sua sobrevivência, riqueza e posição pelo resto de sua vida. Portanto, o Nove de Ouros é uma carta de recompensa e de realização aos nossos próprios olhos, sabendo que, mesmo que ninguém reconheça o valor do que foi realizado, é bem merecido ser reconhecido por nosso próprio interior. Há uma permanência e uma indestrutibilidade acerca da satisfação representada pelo Nove de Ouros que não está presente em qualquer outra carta dos Arcanos Menores. Essa satisfação depende de nada e de ninguém além de nós mesmos. Uma vez estabelecida, não pode ser destruída, mesmo que toda a riqueza nos seja retirada.

O Nove de Ouros é mais do que uma carta de realização material. Em um sentido mais sutil, ela implica a descoberta de um sentido profundo e permanente de auto-esti¬ma, angariado por meio do trabalho árduo ao enfrentar os desafios da vida no nível material e sobrevivendo a todos. . No sentido divinatório, o Nove de Ouros prevê um período em que o indivíduo pode estar honestamente satisfeito consigo mesmo e com o que conseguiu realizar. Muitas vezes, há um forte sentido de identidade, um sentimento de nossas habilidades especiais e o valor de nossa própria vida.
Essa carta reflete a satisfação solitária e auto-suficiente das coisas boas realizadas que não dependem da concordância e da aprovação de qualquer pessoa para promover o prazer e a profunda satisfação.

8) ambiente externo: O 6 de Copas

A carta Seis de Copas retrata Psique sentada sobre um rochedo e, atrás dela, um mar calmo. Em sua mão esquerda, ela segura e contempla o conteúdo de uma taça dourada. Em sua mão direita, os restos de seu buque de noiva de lírios brancos. Ao seu redor, outras cinco taças douradas.

O Seis de Copas é uma carta nostálgica. Aqui podemos ver Psique abandonada; o seu misterioso marido se foi e o magnífico palácio desapareceu; tudo o que ela tem são boas memórias. Entretanto, apesar da catástrofe, Psique parece estar tranquila, pois o Seis de Copas não é uma carta negativa. Com o ocorrido, Psique conseguiu
algo muito precioso. Ela realmente viu Eros e agora sabe que o ama pelo que ele é, e não pelo conforto e pelo prazer que ele lhe propor­cionava. Portanto, apesar da perda, ela descobriu algo a seu próprio respeito e é essa verdade que promove a harmonia que podemos ver nessa carta.

A calma e a serenidade que muitas vezes ocorrem depois de uma crise em nossas vidas são relacionadas a esse estágio da história. Aqui, os sonhos e as expectativas irreais do passado, por meio de provas e decepções, de certa forma se cristalizam em algo sólido e real. Psique assumiu o desafio de recuperar o seu amor perdido após o arrependimento e o remorso do Cinco de Copas e, portanto, está em paz consigo mesma. O seu amor tornou-se realidade e agora ela tem alguma coisa com que trabalhar. Nesses momentos, a nostalgia do passado sempre volta para nos assombrar, mas existe uma faísca de verdade nele e não se trata apenas de uma fantasia sentimental sem fundamento. Após a auto-recriminação do Cinco, o Seis de Co­pas representa uma retomada positiva na jornada de Psique para o seu objetivo.

No sentido divinatório, o Seis de Copas anuncia um período de serenidade que resulta das experiências dos sonhos do passado. Al­gumas vezes, um antigo amor volta do passado ou o sonho de um desejo antigo parece ser realizável em um futuro próximo. A ceguei­ra própria do estado de "estar apaixonado" solidificou-se e, apesar de o passado parecer maravilhoso, mas irrevogavelmente perdido, uma parte de sua promessa surge no presente, temperada e reforça­da. Essa carta implica a nostalgia a respeito do passado, mas com uma diferença: o passado pode levar ao futuro e o sonho passa a ser possível, e até próximo de realização.


9) esperanças e temores: O 4 de Copas

A carta Quatro de Copas retrata Psique, a recente noiva, sentada no magnífico palácio do deus Eros. Através de colunas brancas, vislumbra-se o mar. Aos dois lados de Psique, estão suas invejosas irmãs, uma vestindo preto e a outra, vermelho, ambas sussurrando que o seu noivo seria um terrível monstro; do contrário, por que haveria de ocultar-se nas sombras, visitando-a somente à noite? Psique assume um olhar descontente. À sua frente, quatro taças douradas.

Os Quatro de todos os naipes dos Arcanos Menores são aqueles do descontentamento divino. Apesar de tudo parecer alegre e compensador, ainda existem dúvida e suspeita. O Quatro de Copas retrata esse descontentamento em nível de sentimento. Psique vive na opulência e é visitada à noite pelo marido amante e carinhoso, mas mesmo assim não está satisfeita. Suas invejosas e ciumentas irmãs, de certa forma, são os impulsos interiores da própria alma, pois, apesar de negativos e de provocar-lhe dúvidas, sondam um pro­blema real: a cegueira e a ignorância de Psique quanto a quem e o que é o seu verdadeiro consorte.

Assim, a realização inicial do Três provou ser uma decepção, pois há uma crescente percepção de que alguma coisa está errada, algo que não está sendo considerado. Todos temos essas horríveis irmãs dentro de nós, uma espécie de lado sombra de nossa personalidade que mais parece desejar-nos o mal e, no entanto, somente quer o nosso bem, porque ele nos obriga a analisar mais profundamente e a exigir mais honestidade em nosso tratamento emocional com as pes­soas. Caso Psique tivesse permanecido em seu estado cego e satis­feito de ignorância, ela nunca teria crescido e todo o potencial de seu relacionamento com Eros e o seu próprio "eu" nunca seria alcança­do. Portanto, o Quatro de Copas, a carta dos sentimentos desconten­tes e da insatisfação emocional, por nenhuma razão aparente, é tanto negativo quanto positivo. Ele retrata todas as nossas vãs suspeitas e dúvidas a respeito das outras pessoas; e isso resulta na semente de todas as traições. Entretanto, ele ainda retrata uma misteriosa força inteligente funcionando no indivíduo que, de alguma forma, sabe que ainda há um longo caminho pela frente.

No sentido divinatório, o Quatro de Copas prevê um período de insatisfação, de tédio e de depressão em um relacionamento. Há um sentimento de ter sido abandonado ou trapaceado, apesar de que os trapaceiros somos nós mesmos, graças às nossas expectativas irreais. Essa insatisfação pode levar a um demorado e tácito ressentimento ou pode levar a uma análise mais profunda dos relacionamentos, um ca­minho mais árduo porque as suposições e fantasias anteriores serão então desafiadas.


10) fechamento: Os Namorados

A carta dos namorados retrata um jovem formoso vestido em simples trajes de pastor, segurando um cajado na mão direita; em sua mão esquerda, uma maçã dourada. Três mulheres se exibem, pois se trata de um concurso de beleza e a maçã dourada será o prémio da escolhida. A mulher à esquerda tem um porte majesto­so e maduro, com cabelos castanhos e olhos claros, um vestido de cor púrpura e porta um diadema dourado na cabeça. Ela oferece ao jovem o globo do mundo. A mulher ao centro é jovem, sedutora e de cabelos pretos. Sua túnica transparente cor-de-rosa revela mais do que esconde. Ela oferece um cálice de ouro. A mulher à direita é fria e casta, vestida com armadura completa de luta; seus cabelos claros estão quase totalmente cobertos pelo elmo de guerreiro. Ela oferece uma espada. Atrás das quatro figuras, estende-se um cenário ondulante de colinas verdejantes.

Aqui encontramos o príncipe Paris que foi incumbido por Zeus de presidir um concurso de beleza entre as três deusas - Hera, Afrodite e Atena. Quando Paris nasceu, um oráculo previu que um dia ele representaria a derrocada do império do pai. Com medo dessa pro­fecia, o rei Príamo, seu pai, sentenciou-o à morte, abandonando-o à sua própria sorte no topo de uma colina. Mas um pastor que por ali
passava o salvou e criou. Ele cresceu pastando ovelhas e passava horas a imaginar conquistas românticas, pois era um jovem bonito e encantador.

Quando, no Monte Olimpo, uma disputa ocorreu entre Hera (rai­nha dos deuses), Afrodite (deusa do amor sensual) e Atena (deusa da justiça) quanto à mais bela das três, Zeus decidiu que Paris, com sua rica e vasta experiência do assunto, seria o melhor juiz para o concurso. Hermes foi enviado para informar o jovem dessa dúbia honra que lhe era conferida pelo rei dos deuses.

Inicialmente, Paris recusou o pedido, sabendo muito bem que, ao escolher uma delas, as outras duas nunca o perdoariam. Mas Her­mes o ameaçou com a ira de Zeus e Paris então sugeriu dividir a maçã em três partes, pois de que forma ele poderia fazer uma esco­lha entre tais beldades? Mas Hermes também não aceitou essa descul­pa. Por conseguinte, as deusas se exibiram perante o jovem. Hera ofereceu-lhe o governo do mundo, caso a escolhesse; Atena ofereceu torná-lo o mais poderoso e justo dos guerreiros; e Afrodite simples­mente abriu a sua túnica e ofereceu-lhe o cálice do amor, prometendo-lhe a mulher mortal mais bonita do mundo como esposa.
O resultado era previsível. Sendo jovem e inexperiente com respeito aos seus valores internos, Paris escolheu Afrodite sem qual­quer hesitação.

O seu prémio foi a famosa Helena, rainha de Esparta, que, inconvenientemente, era casada. Hera e Atena sorriram e pro­meteram que não o culpariam por sua escolha e, em seguida, saíram de braços dados confabulando a ruína de Tróia. E assim começou a conflagração da guerra troiana, que se iniciou com a raiva do marido traído e terminou com a ruína total da cidade de Tróia e de toda a casa real. O oráculo comprovou a sua autenticidade.

No sentido interno, o Juízo de Paris, como ficou conhecido na Mitologia, é uma imagem do primeiro grande desafio da vida em face do desenvolvimento individual: o problema da escolha no amor. Esse dilema não diz respeito unicamente à decisão entre duas mu­lheres ou dois homens, também se refere aos nossos valores, porque as escolhas refletem o tipo de pessoa que queremos ser. Por ser jovem e em razão de suas necessidades sexuais, Paris não pôde realmente escolher de uma perspectiva madura; sua escolha derivou de seus desejos e não de suas verdadeiras necessidades. Aqui está o problema do livre-arbítrio contra as compulsões dos instintos.

As consequências das escolhas no amor são enormes, pois afe-tam todos os níveis da vida. A compulsiva escolha de Paris resulta derradeiramente no grande conflito da Guerra de Tróia. Aqui não se trata da escolha "errada", pois ele ainda não está centrado o sufi­ciente para comparar a atração erótica de Afrodite com a sedução da esposa de outra pessoa. Também pouco conhece de si mesmo para decidir se o poder terreno ou a liderança de um guerreiro são igualmente importantes para ele. O concurso lhe é imposto assim como os desafios que surgem para todos nós antes que estejamos prontos para eles e, de certa maneira, o seu "erro" é necessário e inevitável.

O desejo por outra pessoa implica o desenvolvimento dos valores individuais e o autoconhecimento por meio das confusões e dos conflitos que derivam de nossas escolhas. Essa situação não pode ser evitada, por ser arquetípica. Paris é a nossa parte que, go­vernada pela incontida necessidade da satisfação do desejo, ainda não pode enxergar que todas as opções têm consequências pelas quais somos, no fim, responsáveis. Sem passar por meio da iniciação pelo fogo, não podemos entender como criamos o nosso futuro, mas colocamos a culpa no destino, no acaso ou em outra pessoa, em vez de colocá-la em nossa própria falta de reflexão.

No sentido divinatório, quando a carta dos Namorados aparece em uma abertura de cartas, ela prevê a necessidade de algum tipo de escolha, geralmente no amor. O Louco, que descobriu a sua própria dualidade, agora deve colocar os seus valores em teste. Às vezes isso significa um triângulo amoroso, mas também pode significar o problema de um casamento apressado ou a escolha entre o amor e uma carreira profissional ou alguma outra atividade criativa. Essa carta implica a necessidade de analisar cuidadosamente as conse­quências de nossas próprias escolhas, em vez de sermos cegamente impelidos, como Paris, a uma conflagração de graves consequências.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Leitura de 30-3-2018 (última noite de lua crescente)


1- [centro da questão] O Sete de Copas

A carta Sete de Copas retrata a deusa Afrodite instruindo Psique a respeito das tarefas que ela deverá cumprir para poder ficar com Eros novamente. Psique está ajoelhada diante da deusa, reconhecendo a soberania divina em todos os assuntos relativos ao amor. Surgindo da água, Afrodite aponta para as sete taças douradas que flutuam nas nuvens diante dela.

O Sete de Copas representa a dádiva - e o problema - de ser confrontado com muitas possibilidades nos assuntos do coração. Essa é a carta dos "castelos no ar". A intuição percebe todos os tipos de potenciais futuros, mas essas visões de possibilidades devem tornar-se reais e concretas por meio de um grande e árduo trabalho. Psique ergueu-se de seu estado nostálgico retratado pelo Seis de Copas, com um sério compromisso para com o seu amor e, humildemente, ela pede a ajuda de Afrodite, apesar de saber muito bem que a capri¬chosa deusa foi quem iniciou todas as mudanças catastróficas da sorte.

Como resposta, Afrodite garante a futura reunião com Eros e é dessa forma que são invocadas as alegres fantasias da solução do relacionamento. Agora, tudo é possível para Psique. Mas Afrodite exige um preço: trabalho árduo e demorado, esforços cansativos, cuidado e previsão, que podem provocar humilhação e sofrimento. Mas Psique não pode ter Eros de volta sem executar esses trabalhos.

O surgimento de alegres fantasias a respeito de um futuro maravilhoso no qual tudo é possível no amor é o natural desabrochar do comprometimento interior já estabelecido no Seis de Copas. Quando conseguimos uma profunda realização dos nossos sentimentos verdadeiros ou conseguimos uma ligação com uma importante parte de nós mesmos, tal como Psique conseguiu com o seu amor por Eros, o futuro descortina-se para uma rósea visão. "Agora eu sei como tudo isso aconteceu", afirmamos com confiança, porque agora sabemos que as possibilidades são infinitas.

Mas tempo, escolhas certas e trabalho árduo são necessários para que essas possibilidades se transformem em realidade concreta. O relacionamento profundo e honesto que Psique agora almeja promete um futuro feliz. Mas, antes, ela deve aceitar as limitações da realidade: o fato de seu marido ser imaturo demais para aceitar essa honestidade e que ela própria deve aprender a ser paciente, ter fé e perseverança, antes de poder tê-lo de volta.

No sentido divinatório, o Sete de Copas prevê uma situação emocional na qual muitos potenciais são evidentes, mas o indivíduo é confrontado pelo desafio de escolher e agir em termos realistas para que esses potenciais se manifestem.


2- [carta cruzada – o desafio] O Dez de Paus

A carta Dez de Paus retrata Jasão sentado diante dos destroços do navio Argo, totalmente exausto. Ele voltou vitorioso para Iolkos e está com um traje real vermelho e uma coroa dourada; aos seus pés, o Velocino de Ouro. Ele está curvado pelo peso das dez tochas flamejantes, distribuídas em suas costas e seus ombros.

O Dez de Paus retrata um estado de opressão. Jasão cumpriu o que havia planejado fazer, mas, ao final da história, ele é uma figura triste, sobrecarregada e esmagada pelas preocupações, enquanto o navio Argo, uma vez glorioso, o transportador de heróis, está em ruínas e apodrecendo.

A princípio é difícil entender por que essa lenda de visão e de feitos heróicos devesse culminar em uma imagem tão pesada e triste. Mas essa última carta do naipe de Paus revela algo importante a respeito da imaginação criativa: ela pode não funcionar mais quando fica presa sob o peso das responsabilidades materiais.

Essa dura lição ocorre a muitas pessoas que se propõem a iniciar um negócio ou objetivam um sucesso criativo. Com o passar do tempo e com o crescimento e a solidez do empreendimento, o espírito de aventura e o entusiasmo do começo parecem sumir. No processo de atingir a sua meta e recuperar o seu trono, Jasão deixou de valorizar os elementos imprevisíveis, como aqueles que Medeia personifica, e dessa maneira ele "se vendeu", esquecendo-se da ousadia e da de¬senvoltura que primeiro o empurraram para a aventura. O poder volátil da imaginação não se deixa prender às formas pesadas c estruturadas. Frequentemente, o tédio e a depressão acompanham a integralidade de um trabalho criativo, pois, enquanto a tensão do esforço empenhado cm ideias criativas gera mais ideias, suas concretizações finais significam que a imaginação não pode mais se expressar livremente.

Portanto, a imaginação precisa de campos novos e o indivíduo que, como Jasão, se agarra às formas que construiu pode deparar-se com uma certa opressão e exaustão sem razões aparentes. Esse é o momento de abrir mão de alguma defesa e segurança para que a imaginação possa ser despertada com uma nova ideia, uma nova meta e uma nova aventura.

No sentido divinatório, o Dez de Paus sugere que o indivíduo está sobrecarregado e oprimido por ter assumido responsabilidades em demasia e além de sua capacidade de suportar. A imaginação foi sufocada pelas excessivas preocupações materiais e parte daquela jovem ousadia e disposição simplesmente se perdeu. E preciso renunciar a certas coisas para que o processo criativo possa ser renovado e um novo ciclo recomece.


3- [carta de cabeça – influências racionais ou externas] O Ás de Ouros* (carta persistente)

A carta do Ás de Ouros retrata um homem moreno e forte com longos cabelos encaracolados e uma cauda de peixe, emergindo das profundezas do mar e erguendo um grande pentáculo dourado. Ao seu redor, rochedos ricamente recobertos de vinhas com cachos de uva amadurecendo. A distância, um cenário de verdes e férteis colinas rodeando uma baía.

Aqui nos deparamos com o deus Poseidon, o qual encontramos na carta da Torre dos Arcanos Maiores. Poseidon era um dos filhos de Cronos e Réa e participou do destino de seus irmãos e irmãs, sendo engolido pelo pai ao nascer. Mas a bebida que Zeus serviu a Cronos fez com que ele regurgitasse todos os filhos que havia engolido. Após a vitória sobre Cronos, a herança paterna foi dividida em três partes: Zeus tomou posse dos vastos céus; Hades, do sombrio Submundo; e Poseidon, dos mares, lagos, rios e de toda a superfície da Terra, visto que ela era apoiada sobre as suas águas e ele podia fazê-la tremer à vontade. Ele ficou famoso entre os deuses pelo seu anseio por terras e entrava em conflito com muitos deles por tentar apossar-se de ilhas e partes da costa da Grécia.

Poseidon era um deus da fertilidade, marido da grande Mãe-Terra e Senhor do Universo físico. Ele era chamado de "agitador da Terra" e venerado na forma de um touro, um grande animal preto com olhos flamejantes, que vivia nas entranhas da Terra; com suas pisoteadas ele fazia com que as montanhas se movessem e os mares inundassem a Terra. Portanto, Poseidon é uma das forças primitivas da natureza e, no Ás de Ouros, ele mostra o seu poder como o impulso de uma nova energia para a criação material.

Em contraste com o Ás de Paus, que se ergue como o nascimento de uma nova visão criativa, o Ás de Ouros volta a sua imensa potência criativa para a Terra, e essa emergente necessidade de concretizar c criar no mundo manifesto é aquela que dá suporte às nossas ambições materiais. O indivíduo que ambiciona riquezas e faz as coisas acontecerem em nível material experimenta algo do poder desse antigo deus terreno e o Ás de Ouros anuncia a erupção de uma nova ambição para a criação e o sucesso material.

No sentido divinatório, o Ás de Ouros prevê a possibilidade de uma realização material porque, agora, a energia primitiva para esse trabalho está disponível ao indivíduo. Muitas vezes dinheiro vêm na forma de uma herança ou de qualquer outra fonte, acompanhado da engenhosidade e da persistência em utilizar esses recursos efetiva e eficientemente.


4- [carta base da questão – raízes/influências desconhecidas] O Cavaleiro de Copas

A carta do Cavaleiro de Copas retrata um lindo jovem de pele clara, cabelos pretos e olhos profundos, montado em um elegante cavalo branco. Ele traja uma túnica roxa e uma armadura prateada toda escamada, e sobre a cabeça porta um elmo com um enfeite em formato de cauda de peixe. Ele conduz o seu cavalo elegantemente ao longo de um riacho borbulhante no qual os peixes saltam da água. Ao seu redor, um cenário romântico de bosques e colinas verdes e, ao longe, o. mar pode ser visto sob um céu azul-claro. Com a sua mão esquerda, ele segura uma taça dourada.

Na carta do Cavaleiro de Copas, deparamo-nos com a dimensão volátil, sensível e mutável do elemento água que, como o riacho, está cheio de vida e em movimento constante. Essa é a representação do herói mitológico Perseu, motivado em todas as suas aventuras pelo amor às mulheres e que, em suas jornadas, deve enfrentar as várias facetas do feminino, tanto obscuras quanto claras, antes de poder reunir-se com o seu amor. Perseu era filho de Zeus e de uma mulher mortal chamada Danae, para quem o deus apareceu em uma chuva de ouro. O pai de Danae, Acrísio, havia sido avisado pelo oráculo de Delfos que sua filha daria à luz um filho que o mataria. Para que isso fosse evitado, ele encerrou Danae e o filho em uma arca e jogou-os ao mar. Protegidos pelas divindades da água, eles foram levados às margens de Sérifos e para a proteção do rei Polidetes. O rei apaixo-nou-se por Danae e a perseguiu durante todos os anos da infância e adolescência de Perseu. Finalmente, Polidetes resolveu matar Perseu porque o jovem era contrário a seu casamento, acreditando que a sua mãe merecia algo melhor. Portanto, o rei enviou o jovem na aparente missão impossível de trazer-lhe a cabeça da terrível Medusa.

Em todo o seu trajeto, Perseu foi protegido pelas deusas. As Gréias, três bruxas que compartilhavam de um único olho, conheciam os segredos do futuro e disseram-lhe onde encontrar Medusa; Atena armou-o com um escudo mágico e foi dessa maneira que o jovem conseguiu matar a górgona, olhando o seu reflexo no escudo espelhado, a fim de proteger sua mãe. Ele levou consigo a cabeça da Medusa e em seu caminho de volta para Sérifos passou pela Etiópia, onde sal¬vou a linda Andrômeda das garras de um monstro marinho. Ele matou o monstro, libertou-a e casou-se com a jovem. Ele então voltou para Sérifos e matou Polidetes que, entrementes, tentara seduzir Danae. Isso feito, juntamente com sua mãe e sua esposa, Perseu empreendeu o caminho de volta para o lugar de seu nascimento onde Acrísio, o seu avô, tentara matá-lo.

Apesar de não procurar vingar-se dele deliberadamente, ele acabou matando-o acidentalmente, tornando-se, dessa forma, rei de Argos. Mas o lugar era repleto de memórias tristes então decidiu transferir-se para Tirinto, onde fun¬dou uma gloriosa dinastia.

Perseu, o Cavaleiro de Copas, é a imagem do verdadeiro espírito romântico, o herói das mulheres em dificuldades, o adorador do amor, da beleza e da verdade, e o defensor dos altos ideais que busca incessantemente o amor perfeito que somente existe no espírito e que sempre parece estar muito próximo, no ser amado seguinte. O espírito romântico do Cavaleiro de Copas incorpora tudo o que é gentil, idealista e bom; não se trata de uma personalidade fraca, ao contrário, ele é capaz de sacrificar tudo em nome de seu ideal ou do ser amado.

Em certo sentido, essa é a imagem do estado de "estar apaixonado", uma experiência que todo realista presume que, com a familiaridade do casamento, com os filhos e as obrigações familiares, acabe morrendo, mas que todo romântico acredita que possa e deva perdu¬rar para sempre. Quando isso não ocorre, o Cavaleiro de Copas. pode seguir em frente, buscando ainda a derradeira experiência do amor sagrado.

É claro que a santidade do Cavaleiro de Copas não exclui o sexo, mas os relacionamentos sexuais para essa figura devem necessaria¬mente estar associados ao amor e ao êxtase espiritual. A "mera" satisfação física não lhe interessa. Historicamente, os ideais do amor romântico que floresceram na Idade Média refletem o espírito do Cavaleiro de Copas. O jovem cavaleiro sempre adorava a sua amada de longe; ele não a contagiaria com seus desejos carnais, mas lhe escreveria poesias e, muitas vezes, dedicaria a sua vida para protegê-la.

Perseu é diferente dos outros heróis em virtude, justamente, desse alto idealismo e veneração pelas mulheres. Diferentemente das figuras como Héracles que enfrenta seus desafios porque tenta expiar um pecado ou como Teseu que os enfrenta por serem excitantes, Perseu segue o seu destino pelo amor, principalmente começando pelo amor de sua mãe. Essa qualidade de venerar e de idealizar a mãe é característica do Cavaleiro de Copas, pois, apesar de sua força, ele se ajoelha aos pés de uma rainha uma mulher de maior poder do que ele.

Muitas vezes, a qualidade do amor representado pelo Cavaleiro de Copas contém esse elemento de adoração por uma pessoa diante da qual nos sentimos um tanto indignos - ou por uma pessoa que já esteja casada. Esse ainda não é um amor entre iguais, que encontra¬remos mais adiante na Rainha e no Rei de Copas. Mas, à sua manei¬ra, é amor e não deveria ser ridicularizado como adolescente ou ima¬turo. Sem o Cavaleiro de Copas, viveríamos em um mundo insípido e desprovido de brilho.

Quando o Cavaleiro de Copas aparece em uma abertura de cartas, indica que chegou o momento de o indivíduo experimentar essa dimensão inebriante e romântica do amor. Frequentemente, o Cavaleiro prevê uma proposta de casamento ou a experiência de uma paixão. Em outro nível, às vezes ele implica uma proposta artística, um relacionamento diferente, não menos exaltado e idealista. Ele ainda pode entrar na vida de um indivíduo como um jovem poético e sensível, um arauto do nosso próprio romantismo emergente.


5- [influências do passado] A Rainha de Paus

A carta da Rainha de Paus retrata uma linda e radiante mulher de cabelos castanhos, com um vestido amarelo e portando uma coroa dourada. Está sentada em um trono dourado cujos braços são entalhados com cabeças de leão e, aos seus pés, amarrada em uma corrente dourada, encontra-se uma leoa adormecida. Em sua mão, uma tocha flamejante e, ao seu redor, um cenário de ricos campos verdes e dourados sob um céu azul-vivo.

Na carta da Rainha de Paus, deparamo-nos com a dimensão estável, vivificante e fiel do elemento Fogo, que aquece, anima e inspira. Ela incorpora a figura mitológica da rainha Penélope, esposa do famoso Ulisses de Ítaca.

Ao nascer, Penélope foi jogada ao mar por ordem de seu pai, Ícaro, que esperava por um filho. Mas um grupo de patos listrados de vermelho a levaram para a superfície, alimentaram-na e levaram-na à praia. Impressionado com esse feito, Ícaro atenuou a sua decepção percebendo que a sua jovem filha devia possuir um destino especial.

Quando o seu marido Ulisses embarcou para a Guerra de Tróia juntamente com os outros príncipes gregos, Penélope passou a governar a ilha com o seu único filho Telêmaco para ajudá-la. Depois de um bom tempo, presumindo que Ulisses havia morrido, 112 jovens príncipes insolentes das ilhas ao redor de Ítaca começaram a corte¬jar Penélope, cada um esperando casar-se com ela para assumir o trono. Eles até decidiram, entre si, assassinar Telêmaco.

Quando pela primeira vez eles pediram que Penélope escolhesse um deles como marido, ela manteve a sua fé com a sua intuição e coração quanto à segurança de Ulisses e declarou que ele certamente devia estar vivo.

Mais tarde, sendo pressionada, ela prometeu uma decisão assim que terminasse a mortalha que estava preparando para o velho Laerte, o seu sogro. Mas ela levou três anos nessa tarefa, tecendo de dia e desfazendo o seu trabalho à noite, até que um dos pretendentes percebeu o estratagema.

Durante todo esse tempo, os príncipes insolentes ficaram desfrutando e divertindo-se no palácio de Ulisses, consumindo o seu alimento, bebendo o seu vinho e seduzindo as suas serviçais.

Nesse meio tempo, Ulisses chegou a Ítaca depois de dez anos de andanças c viagens, disfarçado de mendigo porque havia sido informado das atividades em seu palácio. Quando o tal "mendigo" ali apareceu, de início Penélope não o reconheceu, mas finalmente ele se revelou, destruiu os pretendentes insolentes e reuniu-se feliz à sua mulher.

Entretanto, alguns negam que Penélope permaneceu fiel a Ulisses durante a sua longa ausência, pois era uma mulher de espíri¬to e imaginativa. Eles a acusam de gerar o deus Pan com Hermes, o Mensageiro, o que pode ou não ser verdade.

Penélope, a Rainha de Paus, é a imagem da fidelidade do coração e a força da imaginação criativa para apoiar os objetivos escolhidos do coração. Em um certo sentido, ela é a representação da esposa fiel, mas essa sua fidelidade não é necessariamente literal e algumas versões do mito questionam essa técnica lealdade sexual. A fidelidade de Penélope surge em um nível muito mais profundo.

Durante a longa ausência de seu marido, ela não tinha como saber se ele estava vivo ou morto e, às vezes, seria obviamente mais conveniente escolher outro marido e seguir em frente com a sua vida. Mas, intuitivamente, ela sabe que Ulisses voltará e é essa qualidade de fé e uma lealdade que não surgem da moralidade forçada, mas de uma convicção inte¬rior de que, ao final, tudo dará certo, que tornam Penélope uma figu¬ra tão apropriada para ilustrar a Rainha de Paus.

Mas ela também é contida e estável, pois o seu fogo está controlado e torna-se o calor do aconchego, um centro ao qual muitos são atraídos - tal como os 112 pretendentes atraídos não somente pelo trono, mas também pela mulher.

A Rainha de Paus não sai correndo atrás de arco-íris ou tenta voar para o Monte Olimpo - ideias mais típicas do Cavaleiro. Ela armazena a sua grande força e energia interiormente e as dedica às poucas coisas que conquistaram o seu coração. De alguma forma, a Rainha de Paus é uma imagem antiga daquela figura de "supermulher" que tantas mulheres modernas gostariam de ser: a mulher que é capaz de amar e de ser fiel em um relacionamento, mas que também possui a força, a ingenuidade, a criatividade e a energia incansável para reger o seu próprio mundo pelo seu próprio direito, sem precisar de um ombro forte sobre o qual se apoiar nem tampouco do rótulo socialmente aceito de "esposa" para que se torne autoconfiante.

No sentido divinatório, quando a Rainha de Paus aparece em uma abertura de cartas, ela anuncia o momento de o indivíduo começar a desenvolver essas qualidades de aconchego, de constância, de fide¬lidade e do sustento criativo de uma visão que Penélope tão propria¬mente simboliza. A Rainha de Paus pode entrar em nossa vida como essa mesma mulher, imaginativa, atraente, aconchegante e fiel. Não é mero acaso se essa pessoa aparecer em nossa esfera de relacio¬namentos; ao contrário, trata-se de um prenúncio de que o indivíduo está para encontrar esses atributos dentro dele mesmo.


6- [influências do futuro] O Imperador

A carta do Imperador retrata um homem maduro, de ombros e peito amplos e musculosos. Seus belos e compridos cabelos e barba são castanho-avermelhados e seus olhos azul-claros como o céu. Ele nos confronta sentado em um trono dourado no topo de uma montanha. Sua veste é de cor púrpura bordada a ouro e, em sua cabeça, uma coroa dourada. Com sua mão direita, ele segura três raios, e, com a esquerda, o globo do mundo. Uma águia está pousada sobre o seu ombro. Atrás dele, estende-se um acúmulo de picos nevados.

Aqui encontramos o grande Zeus, rei dos deuses, que os gregos chamavam de Pai de Todos, criador do mundo e soberano dos deuses e dos homens. Na Mitologia, Zeus era o filho mais jovem dos Titãs Cronos e Réa. Uma profecia havia sido revelada a Cronos de que, um dia, um de seus filhos o destronaria e ocuparia o seu lugar. Para se salvaguardar, ele decidiu destruir os seus filhos e, durante cinco anos seguidos, à medida que Réa dava à luz os seus filhos e filhas, Cronos os arrancava de seus braços e os engolia antes que abrissem os olhos.

É claro que isso não agradava Réa que, quando soube que um sexto filho estava para nascer, fugiu secretamente para Arcádia e, em uma gruta, deu à luz Zeus. Então, ela envolveu uma grande pedra em faixas e apresentou-a a Cronos como seu filho. Ele imediata¬mente a engoliu. Com o tempo, Zeus cresceu e apresentou-se a Cro¬nos disfarçado de copeiro. Ele preparou uma poção para o seu pai a qual o enjoou tão violentamente que vomitou as cinco crianças ilesas, as quais havia engolido, assim como a pedra que Réa lhe havia levado no lugar de Zeus. Zeus então levou seus irmãos e irmãs a uma rebelião contra Cronos e, destronando-o, inaugurou um novo reinado.

O novo rei dos deuses fez do Monte Olimpo a sua morada e estabeleceu uma hierarquia de deuses que obedeciam à sua lei su¬prema. Seus símbolos de poder eram o trovão e o raio. Seu espírito volátil, fogoso e dissoluto expressou-se não somente nas tempesta¬des elétricas, mas também nas muitas amantes que ele perseguiu e nos muitos filhos que gerou. Entre eles estava Atena (deusa da justi¬ça), Diké (deusa da lei natural), as três Moiras ou Parcas (deusas do destino) e as nove Musas (que presidem as artes liberais). Sua espo¬sa, Hera, deusa do casamento e dos nascimentos, reinava como a sua consorte. Zeus concedia o bem e o mal de acordo com as leis que ele mesmo estabelecia. Ele também era deus dos lares e da amizade, e o protetor de todos os homens.

No sentido interior, Zeus, o Imperador, é a imagem da experiência da paternidade. É o pai que encarna os nossos ideais espirituais, os nossos códigos éticos, a auto-suficiência com a qual sobrevivemos no mundo, a autoridade e a ambição que nos levam às realizações, a disciplina e a presciência necessárias para alcançar as nossas metas. Esse princípio masculino, tanto nos homens quanto nas mulheres, difere da nutrição e do amor incondicional da mãe com os quais nos deparamos na carta da Imperatriz.

Aqui, o mais alto valor é concedido ao espírito e não ao corpo, e o que é exigido de nós é a ação, em vez do fluir intuitivo com a natureza. O nosso pai interior também promove o auto-respeito porque é essa nossa parte que pode assumir uma posição da qual é possível enfrentar os desafios da vida.

Zeus podia ter compaixão e defender os fracos e os pobres, mas também podia mostrar a sua ira e a sua vingança caso a sua autoridade fosse contestada e suas leis fossem violadas. Dessa forma, Zeus, o Imperador, tem o seu lado sombrio expresso, em nível interior, pela rigidez e pela implacável retidão. Estar em relacionamento com o pai interior significa possuir um sentido de autopoder, a capacidade de implementar ideias e concretizá-las no mundo. Ser dominado pelo pai interior significa estar preso a um conjunto de crenças que esmaga todos os sentimentos humanos com sua inflexibilidade e arrogância.

Então, tal como o próprio Zeus, devemos derrocar o antigo regime, inaugurando uma nova lei mais criativa para não nos tornarmos tiranos fúteis ou para não sermos envolvidos pelo feitiço de um tirano do mundo externo. Ao descobrir o mundo rico e fecundo das necessidades e dos prazeres do corpo, o Louco, agora, deve encontrar os princípios éticos que devem reger a vida, pois sem o Imperador somos meros joguetes guiados interna e externamente pelo instinto cego, culpando outras pessoas e a sociedade por nossos problemas, em razão do fato de não podermos encontrar a experiência interior da força representada pelo pai.

No sentido divinatório, Zeus, o Imperador, prevê um confronto com relação à questão do princípio do pai em sua forma tanto positiva quanto negativa. Somos desafiados a manifestarmos para concretizar uma ideia criativa, para construir no mundo, talvez para estabelecer um negócio ou a estrutura de um lar familiar. Devemos assumir uma posição para nos tornarmos efetivos e poderosos, para expressarmos as nossas ideias e ética.

Também devemos considerar o momento em que o jovem rei se torna o rígido e opressivo tirano, e quando as nossas ideologias interferem na vida e no desenvolvimento. Quando o Louco encontra o Imperador, após a sua permanência temporária no mundo dos instintos, ele aprende a enfrentar a vida sozinho, com seus próprios recursos e de acordo com a ética que deve desenvolver para si. Ele, então, pode progredir em sua jornada com a certeza de ser efetivo na vida, porque acredita em algo maior cuja autoridade ele mesmo incorpora.


7- [posição atual – atitude e autoimagem] O Quatro de Paus

A carta Quatro de Paus retrata Jasão e seus companheiros de viagem comemorando o fim da construção do grande navio Argo que os levará para a Cólquida em busca do Velocino de Ouro. O navio, com suas velas vermelhas e ostentando o emblema de um clarão de Sol dourado, aguarda a subida da maré. Ao redor da figura de Jasão, que veste uma túnica vermelha, estão cinco de seus heróicos companheiros: Héracles (com o qual nos deparamos na carta da Força dos Arcanos Maiores), portando a sua pele de leão e segurando uma tocha flamejante; Teseu, rei de Atenas (que encontraremos mais adiante na carta do Rei de Paus dos Arcanos Menores), com uma coroa dourada, vestido de vermelho-carmesim e segurando uma tocha flamejante; Castor e Pólux, os Gémeos Guerreiros (que encontraremos mais adiante na carta do Cavaleiro de Espadas), ambos portando uma armadura prateada e uma tocha flamejante; e Orfeu, o Cantor (com o qual nos deparamos na carta do Rei de Copas), trajando uma túnica azul e segurando a sua lira.

O Quatro de Paus é a carta da colheita e da recompensa. O desafio de uma nova ideia criativa foi enfrentado, muito trabalho foi feito e agora o indivíduo pode colher a sólida recompensa consegui¬da por meio do esforço. Da mesma forma que o Três de Paus, essa carta implica algo que merece ser comemorado; mas, diferentemen¬te do Três de Paus, ela possui uma base mais sólida e os benefícios já são evidentes.

O desafio de conquistar o Velocino de Ouro é assom¬broso; como pode um homem sozinho navegar aos confins do mundo e com que meios? Jasão correspondeu a esse desafio cercando-se dos amigos para ajudá-lo a alcançar os seus objetivos. Todos esses heróis da Mitologia têm habilidades diferentes, de acordo com suas naturezas. Héracles tem a força; Teseu, um fogoso aventureiro como Jasão, a visão criativa; os Gémeos, a mente afiada; e Orfeu, o sentimento profundo e a empatia para desarmar qualquer inimi¬go. Se considerarmos todos esses amigos como pessoas reais cujo apoio podemos angariar ou como recursos interiores dos quais pode¬mos usufruir nesse estágio do processo de trabalho criativo, a ajuda está disponível e poderá permitir o alcance dos nossos objetivos. Com essa tripulação heróica e esse navio esplêndido, a satisfação de Jasão está garantida.

No sentido divinatório, o Quatro de Paus prevê um período de recompensa pelos esforços empreendidos. Uma nova ideia produziu frutos prematuros e o indivíduo tem todo o direito de comemorar os resultados concretos de seus esforços. Mas esse é tão somente um estágio da jornada e logo o navio deverá zarpar para enfrentar os maiores desafios antes de atingir a meta final.


8- [ambiente – como os outros te veem] O Julgamento

A carta do Julgamento retrata um jovem de cabelos pretos encaracolados, trajando uma túnica branca e um manto de viagem vermelho. Em sua cabeça, um elmo alado e, em seus pés, sandálias aladas. Em sua mão direita, ele segura o caduceu, a vara mágica entrelaçada por duas cobras. Aos seus lados e apenas visíveis, duas colunas, uma branca e outra preta. As escadas em que se encontra ascendem para uma porta pela qual é possível entrever um cenário verde no qual o Sol está apenas surgindo. Diante dele estão vários caixões gravados dos quais os mortos se levantam, estendendo-lhe seus braços e desfazendo-se de suas mortalhas.

Aqui, à medida que nos aproximamos do fim do ciclo dos Arcanos Maiores, deparamo-nos com o deus com o qual nos encontramos no início - Hermes, o Psicopompo, Condutor de Almas. Na carta do Mago, Hermes aparece como o guia interior do Louco no início de sua jorna¬da da vida - trapaceiro, protetor dos viajantes perdidos e mago, o qual pode indicar o caminho por meio das misteriosas intuições que, na Mitologia, diziam que o deus dispensava.

Agora, ele é revelado como uma divindade poderosa do Submundo, emissário de Hades, que convoca gentil e eloquentemente os moribundos aplicando a sua vara dourada sobre seus olhos. Mas Hermes também podia convocar as almas dos mortos de volta à vida, como também introduzi-las no do¬mínio de Hades.

Na Mitologia, quando Tântalo, o rei da Lídia, cortou o seu filho em pedaços para servi-los aos deuses, Hermes reuniu-os, devolvendo a vida ao jovem. Como arauto dos deuses, Hermes também libertava heróis, como Teseu, que entravam no reino de Hades ilicitamente e ali ficavam presos. Ele também guiou Orfeu nesse reino obscuro à procura de sua esposa Eurídice e o guiou novamente para fora quando esse a perdeu pela segunda vez. Dessa forma, o Hermes da carta do Julgamento não é somente o guia, mas também aquele que convoca e leva as almas para o seu juízo, preparando-as para uma nova vida.

No sentido interior, Hermes, o Psicopompo, é a imagem de um processo que ocorre em certos momentos críticos da vida, como, por exemplo, um exame de consciência, quando as experiências do pas¬sado são reunidas e consideradas como parte de um padrão inteligente e cujas consequências devem ser compreendidas e aceitas. Esse processo não é uma função intelectual, mas uma ideia do que é engendrado no Submundo da inconsciência. É uma chamada para os mortos se erguerem, para que as muitas e variadas ações e decisões que executamos sejam reunidas a fim de produzir um resultado. O artista passa por esse processo quando, depois de muitas horas, semanas ou até anos, na tentativa de formular, pesquisar, praticar uma técnica e dar forma a uma vaga ideia ou imagem, finalmente algo "acontece" e uma nova obra criativa vem à luz.

Esse mesmo processo pode ser visto na psicoterapia, em que um indivíduo luta, durante um longo tempo, com as memórias e sentimentos desconectados do passado e do presente, preso e bloqueado, e, de repente, há uma coesão e o seu padrão de vida finalmente faz sentido. Esse processo pode ocorrer em qualquer plano de vida no qual nos debatemos e lutamos cegamente diante de uma situação para repentinamente o esforço ser recompensado, surgindo uma síntese e um novo desenvolvimento.

Assim é Hermes no máximo de seu poder mágico, revelado como o verdadeiro senhor de toda a jornada do Louco, juntando por meio de um misterioso processo de intuição as experiências e as percepções angariadas em cada estágio da jornada e, magicamente, mesclando-as para formar o início de uma nova e mais ampla personalidade.

Portanto, a figura de Hermes conduzindo as almas para o julgamento representa um processo de nascimento, que levará a uma personalidade mais completa que, de maneira irracional, provém das experiências combinadas do passado, entremeadas pelo discernimento e pelo sentido de que, na realidade, eventos e opções aparentemente aleatórios estão secretamente ligados.

O juiz dos mortos decide qual futuro merecem os esforços passados e é nesses esforços das cartas passadas que o futuro do Louco é edificado. A carta do Julgamento simboliza a recompensa dos esforços empenhados, apesar de o juiz estar em nosso interior e não no mundo exterior. Também pagamos por nossos erros de inconsciência e colhemos os frutos da recusa em assumir a responsabilidade de nossas próprias escolhas em cada estágio da jornada.

O Julgamento não é somente a imagem de um novo começo, mas é o início que emerge do passado. Na filosofia oriental, isso é chamado de carma. Cada pessoa semeia o seu próprio campo e deverá colher o que foi produzido de seu plantio. Apesar de frequentemente ser considerado trapaceiro e mentiroso, na função de Psicopompo, Hermes não permite que a alma minta. Tudo deve ser computado c o Louco encontra finalmente as consequências de todas as escolhas que fez na vida.

No sentido divinatório, quando o Julgamento aparece em uma abertura de cartas, ele prevê um tempo de recompensa por esforços passados. Esse é o período da síntese, da realização do que fizemos e onde nós mesmos criamos o futuro que agora nos aguarda. Trata-se de uma carta ambígua, pois também pode implicar um confronto incómodo com nossas fugas e traições. Nem sempre a recompensa é agradável. Agora, o Louco deve responder por sua jornada, pois chegou o tempo da colheita e tanto os erros quanto os esforços criativos do passado são reunidos para formar o futuro.

Independentemente do que acontece ao indivíduo em termos de experiências, a carta do Julgamento anuncia o fim de um capítulo da vida. Mas, diferentemente da carta da Morte, ela não implica o luto. Ao contrário, é a clara percepção de quanto fomos autênticos com relação a nós mesmos.


9- [esperanças e temores] O Nove de Copas* (Foi a carta 10 no jogo anterior)

A carta Nove de Copas retrata o momento de felicidade quando Psique é resgatada do Submundo e reunida a Eros. Em um rochedo cercado pelo mar, Psique e Eros portam guirlandas de flores e se confrontam de braços dados. Ao lado, Afrodite olha bondosa¬mente para os dois, levantando uma taça e abençoando essa união. Abaixo deles, seis taças douradas estão cuidadosamente arrumadas em comemoração à reunião dos amantes.

O Nove de Copas é a carta do desejo que representa a satisfação e a realização de um sonho emocional. Psique e Eros estão final¬mente reunidos no mútuo amor honesto. Cada um, à sua maneira, traiu o outro e sabe em nível profundo quem é o parceiro; e compreenderam e perdoaram-se mutuamente. É por isso que Afrodite abençoa a união, pois o poder do amor incondicional humano pode afetar até os deuses. Esse momento extático de realização, diferentemente da comemoração inicial do Três de Copas, foi realmente merecido, não pela força, pela vontade ou pela manipulação emocional, ou ainda pela proclamação exagerada do auto-sacrifício, mas pelo seguro comprometimento interior assumido pelo único ser humano da história. Tudo o que Psique fez e realizou foi em fidelidade ao seu próprio sentimento. E, dessa forma, ela adquiriu o direito de reivindicar o seu marido divino, fazendo com que até os deuses se envergonhassem.

Esse segundo encontro é o autêntico casamento de Eros e Psique, sugerindo o que essa união pode vir a ser, pois ela não surge do simples estado de "estar apaixonado", mas do comprometimento tanto ao amor quanto ao ressentimento, à traição, à separação, ao desespero e à possibilidade da desistência, se for necessária. Isso é raro, pois a jornada de Copas não diz respeito a "estar apaixonado e viver feliz para sempre", para logo se separar quando o amado decepciona. Na realidade, trata-se de uma jornada interior ao encontro de um compromisso com os nossos próprios valores de sentimento e, portanto, é uma união tanto interior quanto exterior.

No sentido divinatório, o Nove de Copas anuncia um período de prazer e de satisfação, e a realização de um desejo almejado. Ele representa a recompensa pelos esforços empregados e a validação do nosso comprometimento.


10- [resultado final] O Dez de Ouros

A carta do Dez de Ouros retrata Dédalo como um homem velho, com cabelos grisalhos. Ele está confortavelmente sentado com os netos ao seu redor: o patriarca e fundador de uma linhagem. Aos seus lados, pendurados em colunas recobertas de vinhas, dez pentáculos dourados, cinco de cada lado. Em seu colo, uma criança brincando com um chocalho dourado. À sua esquerda, encontra-se uma mulher com cerca de 30 anos, vestida de verde e portando um lindo colar dourado. Aos seus pés, um garoto de 10 anos brinca com um cavalo dourado. Em um cenário distante, ricas montanhas verdejantes e um calmo mar azul.

O Dez de Ouros retrata uma situação de permanência que sobrevive à vida de um único indivíduo. Aqui, seguro em sua posição na corte do rei Cocalos da Sicília, o artesão finalmente depositou as suas raízes e fundou uma dinastia. Agora, ele pode transferir e passar adiante tanto a sua fortuna e seu poder quanto as suas realizações ao chegar o momento de sua despedida definitiva, seguro em seu conhecimento de que o seu trabalho lhe sobreviverá.

Os objetos dourados que ele fabricou, o chocalho, o colar e o cavalo de brinquedo, são os seus presentes ao futuro, para que o processo de manifestação, representado em todas as cartas do naipe de Ouros, consiga a sua conclusão natural, em uma imagem de permanência que forma a contribuição individual das gerações futuras.

De certa forma, este é o significado mais profundo do processo da manifestação de ideias criativas, pois toda a vida individual é transitória e nenhum ser humano vive para sempre. No entanto, o sentido de profunda satisfação e de realização pode ser alcançado pela realização de que podemos construir alguma coisa duradoura para o mundo futuro.

Para o naipe de Paus, a imortalidade está na imaginação e para o naipe de Espadas, está no poder divino da mente; para o naipe de Copas, ela está na experiência do amor que toca o transpessoal. Mas, para o naipe de Ouros, somente o que está aqui é real e é esse sentimento de o indivíduo ter deixado uma marca e que a passagem pela vida não foi um simples pestanejar insignificante que logo desaparece, que muitas vezes forma o núcleo do que chamamos de ambição material.

Por conseguinte, a aparente ambição e o materialismo associados com esforços materiais, vêm de uma necessidade humana de oferecer uma parte de si mesmo à vida como indicador permanente de nossa passagem por ela.

Uma vida plena como foi a de Dédalo, com suas boas e más ações e uma disposição para enfrentar os desafios independentemente das consequências em vez de ficar morgando pacificamente na cama, pode levar à experiência de ter plenamente realizado um destino, deixando alguma coisa para ser passada às gerações futuras.

No sentido divinatório, o Dez de Ouros sugere um período de contínuo contentamento e segurança. O sentido de algo permanente foi estabelecido e pode ser transferido a outras pessoas. Isso pode se referir a uma herança material de riquezas ou de propriedades, ou pode ser na forma de uma realização artística, como um livro ou uma pintura que sobreviverá e apresentará o seu valor, independentemente do nosso próprio tempo de vida.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Como tudo começou

A palavra investigada do momento, há cerca de um ano, era PROSPERIDADE. Fui convidada a ouvir sobre ela. Sobre sua relação com a troca, com o movimento, com a importância de fazer com que as energias circulem para que possa haver troca, colaboração, aprendizado e engrandecimento se a roda da fortuna girar positivamente. Sua gira ao contrário, entretanto, é o que traz a disputa, a inveja, o ódio e a desunião. E eu? O que eu preciso continuar aprendendo sobre isso?

Eis que o assunto Prosperidade me levou a Jung. Eis que Jung me levou ao Tarô Mitológico. Exatamente nesta ordem. Eis que, ao tentar decifrar as mensagens que as cartas traziam, uma cigana me surgiu na janela e começou a narrar as histórias que eu precisava conhecer.

Cartas tiradas em 28/3/2017


A Roda da Fortuna
A carta da Roda da Fortuna retrata três mulheres sentadas dentro de uma caverna escura. A primeira é jovem e tece em uma roca dourada. A segunda é elegante e madura, e mede o comprimento de um fio entre as suas mãos. A terceira é de mais idade e segura um par de tesouras. No centro, entre elas, há uma roda dourada ao redor da qual quatro figuras humanas são colocadas em posições diferentes. Pela abertura da caverna, um cenário com muito verde é visível.Aqui encontramos as três deusas do Destino que os gregos cha­mam de Moiras ou Parcas. Na Mitologia, as Moiras eram filhas da Mãe Noite, concebidas sem pai. Cloto fiava, Láquesis media e Atropos, cujo nome significa "aquela que não pode ser evitada", cortava. As três teciam o fio da vida humana na escuridão secreta da caverna e seus trabalhos não podiam ser desfeitos por deus algum, nem mesmo por Zeus. Uma vez que o destino de um indivíduo fosse tramado, ele seria irrevogável e não poderia ser alterado; e a extensão de vida e a época da morte fariam parte do destino que as Moiras estabeleces­sem. Se alguém tentasse desafiar o destino, tal como alguns heróis o fizeram, ele era afetado pelo que se chamava de "hubris" ou "hybris", que significa arrogância aos olhos dos deuses. É claro que esse indi­víduo não podia fugir ao seu destino e, às vezes, sofria um terrível castigo infligido pelos deuses por tentar superar os limites estabeleci­dos pelas Moiras. Dizem que certa vez Apolo, o deus-Sol, zombou e embriagou as Moiras para poder salvar da morte o seu amigo Admeto. Mas geralmente se acreditava que o próprio Zeus temia as donas do destino por não serem filhas de qualquer deus, mas a progénie das profundezas da Noite, o mais antigo poder do Universo.

No sentido interior, as três Moiras, detentoras da Roda da Fortu­na, apresentam a imagem de uma profunda e misteriosa lei agindo no indivíduo, desconhecida e ainda invisível, que parece precipitar re­pentinas mudanças e subverter os padrões estabelecidos da vida. As quatro figuras na Roda da Fortuna representam as diferentes expe­riências da jornada, pois, quando a vida age dessa maneira, no início não nos preocupamos em procurar a fonte por de trás da Roda, mas sim nossas reações à mudança. O homem no topo foi impulsionado para o sucesso pelo giro da Roda, enquanto o homem no fundo foi esmagado pelo que ele acredita ser "azar" - sem sorte alguma -, quando, na realidade foi a evidente ação de algum misterioso padrão. O homem à direita iniciou a sua subida, ajudado pelo mesmo poder invisível que coroou uma pessoa e derrubou outra; enquanto o ho­mem à esquerda, contra a sua vontade, iniciou a sua descida, pois a Roda girou e a sua "sorte" está se exaurindo.

Entretanto, a carta da Roda da Fortuna não diz respeito às mu­danças bruscas da sorte, do acaso ou por acidente. Atrás da Roda estão as Moiras que planejam de maneira inteligente e organizada as aparentes mudanças aleatórias da vida. Essas figuras antigas estão dentro de nós, bem no fundo do útero do inconsciente, e não fazem parte da personalidade consciente. Nós somente as percebemos por meio dos efeitos externos que parecem ser obra do Destino, mas que surgem das profundezas de nossa alma e não de um poder externo.

Na realidade, a experiência da Roda da Fortuna é a vivência da­quele "Outro" dentro de nós que, geralmente, projetamos no mundo exterior para poder culpar as pessoas, além de nós mesmos, pelas bruscas mudanças de sorte. O giro da Roda da Fortuna nos obriga a estarmos conscientes desse "Outro", o movimento inteligente que está por trás da Roda e que é o destino que todos temos dentro de nós mesmos. A imagem da própria Roda é profunda, pois seu aro giratório assemelha-se ao cenário em constante movimento com o qual nos deparamos durante a vida; porém o eixo está sempre no centro, uma essência ou fonte constante e imutável. O eixo é como o "eu" oculto que "escolhe" (apesar de não ser uma escolha do ego consciente) voltar-se para as várias situações, acontecimentos, ca­minhos e pessoas. O Destino não vem ao nosso encontro; ao contrá­rio, somos nós que nos dirigimos a ele. Na carta da Sacerdotisa, o Louco descobre a faculdade intuitiva dentro de si, personificada por Perséfone, que pode entrever o padrão em ação.

Na carta da Roda da Fortuna, o Louco encontra o poder que tece o padrão, a própria fonte de vida, distante e invisível, mais antigo do que os mais antigos deuses, com um domínio tão absoluto que nem sequer o rei dos deuses ousa desafiar. Até o espírito está sujeito aos comandos desse centro invisível que os gregos representaram com as Moiras e que desmantelam a nossa complacência e a nossa ilusão de controle.

É possível que a dificuldade e até o medo que algumas pessoas têm com respeito ao estudo do Tarô, da Astrologia* e de outras práticas proféticas sejam, em parte, devidos à ansiedade que surge quando a personalidade consciente, acostumada a tomar decisões e com a ilusão da vontade onipotente, confronta-se com esse "Outro" nas profundezas. Apesar de também nos pertencer, não está em nosso
poder controlá-lo, assim como Zeus temia as Moiras. Por conseguin­te, a Roda da Fortuna é mais do que um indicador de mudança. Ela é o emissário de uma profunda jornada interna pela qual o Louco, a nossa própria imagem, gradativamente chega a termos com o seu próprio destino.

No sentido divinatório, a Roda da Fortuna prevê uma mudança repentina da sorte. Isso pode ser tanto no sentido positivo quanto no negativo, mas, independentemente de como gira, ela sempre promo­ve o crescimento e uma nova fase da vida. Não podemos prever o que virá ao nosso encontro - ou melhor, qual será a transformação. Mas por trás dessas mudanças estão as Moiras, uma imagem do centro dentro de nós mesmos. Portanto, o Louco é despertado de sua acomodação e começa a descida para a sua própria fonte.


O Enforcado
A carta do Enforcado retrata um homem maduro, de cabelos e barba castanhos. Apesar de estar acorrentado em posição inverti­da, quase nu à beira de um precipício, ele ainda mantém uma expressão serena em seu rosto. Atrás dele, apresenta-se um cenário obscuro de rochas escarpadas, enquanto o Sol do crepúsculo reflete um brilho sanguíneo em seu corpo e ilumina a sua cabeça. Acima dele, uma águia se aproxima.

Aqui encontramos Prometeu, o Titã que desafiou a lei de Zeus roubando o fogo dos deuses para entregá-lo ao homem, que sabia muito bem que sofreria as consequências. O nome Prometeu signifi­ca "antevisão", e o Titã possuía o dom da profecia. Na Mitologia, também se dizia que ele criou o homem a partir da terra e da água de suas próprias lágrimas, enquanto Atena soprou vida na criatura. Prometeu tinha uma profunda compaixão pela sorte da humanidade por ele ser o seu criador.

Mas Zeus confirmava a sua divina supremacia sobre os homens ocultando-lhes o fogo. Isso significava a falta de progresso e de ilu­minação, pois sem o fogo o homem era condenado a viver como um animal, alimentando-se de carne crua e escondendo-se em caver­nas. Prometeu pegou um pouco do fogo sagrado da forja de Hefesto, escondeu-o no caule oco de um funcho e levou-o para a Terra.

Indignado com o roubo, Zeus resolveu exterminar a humanidade por meio de uma inundação a fim de destruir os culpados, pois ele não somente havia sido ferido em seu orgulho, mas com o fogo o homem poderia tentar tornar-se divino. Mas Prometeu advertiu seu filho Deucalião, que construiu uma arca e nela embarcou com sua esposa Pirra. A inundação durou nove dias e nove noites e no décimo dia o dilúvio cessou e Deucalião ofereceu sacrifício a Zeus. Tocado com sua piedade, o rei dos deuses concordou com o seu pedido de renovar a raça humana.

Mas Prometeu não teve a mesma sorte. Como havia previsto, Zeus prendeu-o com correntes indestrutíveis em um alto despenha­deiro nas montanhas do Cáucaso. Todos os dias uma águia descia das alturas para devorar o seu fígado, que a cada noite se refazia para que a tortura fosse mantida indefinidamente. Após trinta anos, Zeus permitiu que ele fosse resgatado por Héracles, que matou a águia e quebrou as correntes do prisioneiro. Prometeu tornou-se imortal e passou a usar um anel de um dos elos da corrente que o prendia como símbolo de seu cativeiro enquanto a grata humanidade erigia altares para honrar o seu benfeitor.

No sentido interior, Prometeu, o Enforcado, é o retrato do sacrifí­cio voluntário para um bem maior. O sacrifício pode ser representado por uma atitude externa ou interna, mas é realizado voluntariamente, aceitando o sofrimento que possa ser exigido. Na carta da Roda da Fortuna, o Louco depara-se com os bruscos golpes da sorte que provocam mudanças extremas na vida. Mas nós, tal como o Louco, podemos corresponder a essas mudanças de várias formas. Algumas pessoas não conseguem se adaptar e continuam agarrando-se ao passado. Outras se tornam amargas e culpam a vida, Deus, a sociedade ou qualquer outra pessoa. A figura de Prometeu é um símbolo da nossa parte que possui a percepção necessária para com­preender que essas mudanças podem ser úteis no desenrolar de um padrão interno que ainda não está claro. Por conseguinte, o Titã re­presenta uma atitude de submissão voluntária para com aquele cen­tro misterioso cujos padrões dependem dos giros da Roda.
Prometeu, o Enforcado, implica a aceitação da espera na escuri­dão. Ele está suspenso, torturado pela ansiedade e pelo medo de que o seu sacrifício possa ter sido em vão e, no entanto, mantém uma expressão serena. E, finalmente, a sua tortura o transforma, assim como o seu relacionamento com os deuses, pois o dom da imortalida­de lhe é concedido. De muitas formas, Prometeu abre mão do controle para que um novo e maior sentido de vida possa emergir. Como Prometeu criou o homem, pode-se dizer que ele mesmo também o fosse - uma espécie de espírito visionário dentro de nós que enxerga maiores possibilidades e está disposto a abandonar tudo o que anteri­ormente mantínhamos como sagrado para conseguir essa consciência maior. Como resultado, inicialmente Prometeu torna-se extremamente vulnerável, pois, se estivermos preparados a fazer esse sacrifício em confiança, então estaremos abertos para a vida, e ela poderá nos machucar. Mas o preço dessa entrega de defesas e a realização dessa jornada na solidão e na dúvida parecem ser necessárias para que tudo o que nos sustenta tenha um sentido real quando não puder­mos nos sustentar.

Isso é o que as religiões querem dizer com a verdadeira fé que somente pode ser adquirida por meio de nossas experiências na vida. A carta do Enforcado é um desabrochar natural da Roda da Fortuna, pois implica a disposição em confiar naquele "Outro" que sabe, me­lhor do que o ego, o que pode ser necessário e correto para o nosso desenvolvimento.

No sentido divinatório, Prometeu, o Enforcado, prevê a necessi­dade de um sacrifício voluntário com o propósito de adquirir algo de maior valor. Esse pode ser o sacrifício de algo externo que anteriormente proporcionou segurança, na esperança de que algum poten­cial possa ter espaço para o seu desenvolvimento. Ou pode ser o sacrifício de uma atitude preferida, como a superioridade intelectual, ou um ódio inesquecível ou uma busca insistente por uma fantasia inatingível. Dessa forma, o Louco responde ao desafio do giro da Roda com uma disposição em colocar a sua confiança nas tramas invisíveis do inconsciente e aguarda - muitas vezes com medo e ansiedade - na esperança de uma vida nova e melhor.


A Força
A carta da Força retrata um homem musculoso e poderoso com cabelos castanhos encaracolados, vestindo apenas uma tanga vermelha. Ele está embrenhado em uma luta selvagem com um leão envolvendo seus fortes braços no pescoço do animal; no momento crítico ele está vencendo a luta. Rodean­do os dois, as paredes rochosas de uma caverna escura. Pela entrada da caverna é possível ver um cenário árido de colinas
marrons.

Aqui encontramos o grande guerreiro Héracles chamado Hércules pelo romanos, que na Mitologia era o herói invencível. Ele era o filho de Zeus, rei dos deuses, com uma mortal chamada Alcmena, rei dos deuses, com uma mortal chamada Alcmena. A esposa de Zeus estava, como de costume, com ciúme da criança nascida do adultério do marido, dessa maneira o perseguiu com terríveis castigos. Ela fez com que ficasse louco e, em sua loucura, inadvertidamente assassinou a sua esposa e seus filhos. Héracles pediu aos deuses que lhe dessem alguma tarefa para expiar os seus crimes, e o oráculo de Delfos ordenou-lhe que se sujeitasse a 12 anos de trabalhos forçados a serviço do terrível rei Euristeus que Hera favorecia. E assim, o herói sujeitou-se voluntariamente a servir o favorito da deusa, que o perseguiu em reparação de um crime do qual ela era, definitivamente, a responsável.

O primeiro dos famosos Doze Trabalhos que o rei Euristeus exi­giu de Héracles era a conquista do Leão da Neméia, um enorme animal cuja pele era à prova de ferro, bronze e pedra. Como o leão havia despovoado a vizinhança, Héracles não pôde encontrar nin­guém que o dirigisse à sua toca. Finalmente, ele encontrou o animal lambuzado de sangue de sua última vítima. Héracles disparou uma série de flechas, que não conseguiam penetrar a sua grossa pele. Em seguida, usou a sua espada, que simplesmente acabou se dobrando; depois usou o seu bastão, que se despedaçou na cabeça do leão. Então Héracles cobriu uma das entradas da caverna em que o leão se escondia com uma rede e entrou na caverna pelo outro lado. O leão arrancou-lhe um dos dedos, mas Héracles conseguiu agarrá-lo pelo pescoço e o sufocou até a morte com suas próprias mãos. Ele então lhe cortou a pele com uma de suas e afiadas garras e passou a usá-la sempre como armadura e a cabeça como elmo, tornando-se tão invencível quanto o próprio leão.

No sentido interior, Héracles lutando com o Leão da Neméia é a imagem do problema em conter o poderoso e selvagem animal den­tro de nós, preservando, ao mesmo tempo, as qualidades animais que são criativas e vitais. O leão é um tipo especial de animal e reflete um aspecto diferente da psique humana, quando o comparamos aos cavalos fogosos da carta do Carro. Na Mitologia, o leão sempre foi associado com a realeza, mesmo quando está em seu estado mais destrutivo, e esse rei dos animais é, ainda, a imagem de um início infantil, selvagem e totalmente egocêntrico de uma especial individualidade. Portanto, o Leão da Neméia não é totalmente mau e possui uma pele mágica que pode oferecer invencibilidade. Essa invencibilidade está ligada ao sentido de permanência interior que procede de um sólido sentido do "eu". Quando vestimos a pele do leão que conquistamos, as opiniões das outras pessoas - os grandes "Eles" que amedrontam os corações dos tímidos - pouco significam, pois estamos armados com o nosso próprio sentido indestrutível de identidade.

Por mais prometedor que seja o seu potencial, o leão é selvagem e cruel em sua forma animal. Esse lado de uma pessoa descontrola­da é o impulso do "eu primeiro" que, sem pensar duas vezes, destrói qualquer um ou qualquer coisa em seu caminho, desde que a sua gra­tificação seja assegurada. A raiva é uma das manifestações desse impulso - não uma raiva sadia que seria apropriada para a situação, mas explosiva e furiosa quando não conseguimos o nosso intento. O orgulho implacável é outra de suas facetas - não o auto-respeito, mas uma bombástica e inchada auto-importância que pode nos tornar sel­vagens e rígidos com aqueles dos quais dependemos ou que nos rou­bam o centro das atenções. De muitas formas, o leão, como a crian­ça irada em nós, exige que o mundo esteja à nossa volta, destruindo cega e aleatoriamente quando isso não acontece. Mas, se esse ani­mal for conquistado, então podemos apropriar-nos de sua pele mági­ca que, em termos psicológicos, significa integrar o poder vital da besta, fazendo com que sirva a um ego consciente e responsável. Por conseguinte, a conquista do leão não é verdadeiramente uma morte, mas uma espécie de transformação, de maneira que a força e a determinação do animal sejam expressas por um humano, e não por um animal. Aqui está a ambivalência da carta da Força, pois Héracles poderia simplesmente destruir o animal sem que qualquer benefício fosse extraído do massacre. Essa é a faceta negativa de Héracles dentro de nós: o tipo de força que reprime todo instinto sem qualquer transformação, deixando para trás uma concha dentro da qual vive uma alma sem paixão, sem ira e sem uma verdadeira identidade.

No sentido divinatório, quando a carta da Força aparece em uma abertura de cartas, ela implica uma situação na qual um embate com o leão interior é inevitável, sendo necessário o controle da raiva e do orgulho insensato. Coragem, força e autodisciplina são solicitadas para enfrentar a situação. Por meio dessa experiência podemos en­trar em contato com o animal, mas também com uma parte nossa que é representada por Héracles, o herói que pode domá-la. Portan­to, tendo desenvolvido as faculdades da mente e o sentimento, o Louco agora aprende a lidar com o seu próprio exclusivismo, surgin­do desse encontro com confiança em si e integridade para com o próximo.


O Dois de Ouros
A carta Dois de Ouros retrata Dédalo, um homem moreno, de cabelos castanhos e vestindo uma túnica ocre e um avental de couro, em sua oficina. À sua frente, a sua mesa de trabalho sobre dois pentáculos dourados. Em ambos os lados, em uma treliça de maneira, uma vinha cheia de cachos de uva. Atrás dele, um cenário de ricas colinas verdes. Em sua mão esquerda, Dédalo segura o machado que acabou de inventar e, em sua mão direita, uma serra, também invenção sua.

A imagem do Dois de Ouros retrata Dédalo em início de carreira, quando desenvolve as suas habilidades e cria a sua reputação entre os atenienses, aplicando a sua engenhosidade em novas invenções, investindo seus esforços em novos projetos e mantendo-se ocupado e ativo, trabalhando em várias coisas ao mesmo tempo. A figura apresenta um homem materialmente ambicioso que ainda é aberto a novas idéias criativas e disposto a assumir riscos para poder pôr em prática os seus talentos. Entretanto, essa flexibilidade pode desaparecer bruscamente ao ficarmos presos a uma estrutura de su¬cesso que conseguimos angariar; mas ela sempre estará presente no início e, quando o Dois de Ouros aparecer, poderá ser recuperada.

Portanto, o Dois de Ouros representa o estado de mudança ou de oscilação dos bens materiais. Essa flutuação não implica prejuízos, mas um fluxo de energia criativa dirigida a vários projetos. Aqui, o poder primordial do Ás de Ouros foi polarizado como em todos os Dois dos Arcanos Menores, e o impulso para a criação material deve ser fundamentado e canalizado.

O conhecido dito popular "dinheiro faz dinheiro" é bem apropriado para essa carta, pois é necessário assumir riscos e usar o capital para que ele trabalhe e produza antes da realização dos lucros. O Dois de Ouros exige flexibilidade e disposição para fazer dinheiro e energia trabalharem, e muitas vezes isso significa manipular e movimentar os recursos de uma maneira que, para o indivíduo inexperiente, isso possa parecer um risco desnecessário que provoca ansiedade. Entretanto, a carta do Dois de Ouros pode ser interpretada como "boa", pois, apesar de sugerir a necessidade de prudência nos assuntos financeiros, ela promete recompensas, porque a energia criativa está devidamente trabalhada e movimentada.

No sentido divinatório, o Dois de Ouros anuncia o momento em que dinheiro e a força motivadora podem ser disponibilizados em novos projetos que podem levar a um futuro compensador. Mas o indivíduo deve estar disposto em fazer trabalhar os recursos assumindo riscos e fazendo uso do capital, em vez de pensar em economizar justamente quando as novas oportunidades estão surgindo. Por conseguinte, a carta do Dois de Ouros pode ser favorável para aqueles que sabem lidar com o dinheiro.


O Dez de Copas
A carta Dez de Copas retrata a elevação de Psique ao nível divino para que ela possa entrar no mundo dos deuses com o seu marido. O casal, de mãos dadas, encontra-se-novamente no esplêndido palácio de Eros. Psique não porta mais o seu traje virginal; a sua veste agora é de ouro cintilante e, sobre seus ombros, como o seu marido, um par de asas douradas. A frente deles, dez taças douradas.

O Dez de Copas representa um estado de permanência e de contentamento constante. O êxtase da reunião dos amantes na carta Nove de Copas não foi dissipado como na comemoração da carta Três de Copas e o descontentamento no Quatro de Copas, pois esse casamento se baseia na união consciente de dois amantes, mas par­ceiros diferentes. Por conseguinte, eles poderão usufruir um futuro que suportará qualquer desafio da vida ou dos deuses.

O fato de Psique ter sido elevada ao status imortal implica que, agora, o seu amor por Eros engloba não somente uma dimensão pessoal e sensual, mas também uma dimensão espiritual. Eros foi humanizado pelo seu amor por Psique; ele não precisa mais escon­der dela o seu rosto. Por outro lado, Psique experimenta um sentido de ligação com o divino que somente o amor profundo pode promo­ver. Dizem que, às vezes, o amor por uma pessoa abre o coração para o amor à própria vida; a vida tem significado e propósito, e um mundo mais amplo e mais brilhante descortina-se ao nosso olhar. Certa vez, Platão escreveu: "Quando olhamos para o rosto do ser amado, podemos ver o reflexo do deus que chegamos a venerar". É como se o amor, ao passar por muitas provas e fundamentado na honestidade e na humildade, nos ligasse às nossas próprias almas e com um sentido de permanência, significado e retidão na vida. Essa é a promessa inerente ao Ás de Copas que se realiza no Dez de Copas. Nem todo relacionamento consegue esse feito, assim como não o consegue sempre. Entretanto, nós humanos sempre tentamos.

No sentido divinatório, o Dez de Copas prevê contentamento e permanência duradouros no domínio do coração.


O Rei de Espadas
A carta do Rei de Espadas retrata um homem elegante, com feições bem definidas, barba e cabelos louros, vestindo uma túnica cinza e portando uma coroa dourada. Ele está sentado em um trono de prata em cujos braços está entalhado o emblema da harmonia perfeita, o triângulo equilátero. Em uma das mãos, ele segura uma espada e, na outra, uma balança.Atrás dele, um cenário de picos de montanhas embaixo de um céu com nuvens cinza.

Na carta do Rei de Espadas, deparamo-nos com a dimensão di­nâmica, iniciadora e organizadora do elemento Ar. Isso é encenado pela figura mitológica do herói Ulisses, chamado "o Astuto" e com o qual nos encontramos brevemente na carta da Rainha de Paus dos Arcanos Menores, como marido de Penélope. Ulisses, rei de Ítaca, nasceu pela união secreta de Sísifo com a filha do ladrão Autólicos, do qual herdou parte de sua astúcia e inteligência. Ao ser deflagrada a Guerra de Tróia, Ulisses juntou-se aos outros príncipes gregos no assalto a cidade.

Ele provou ser, vez e outra, um conselheiro perspi­caz e um bom estrategista. Foi Ulisses quem primeiro concebeu a ideia do Cavalo de Tróia, aquele cavalo gigante de madeira e oco, enviado para a cidade como presente da deusa Atena, escondendo dentro de seu bojo um destacamento de soldados gregos. Quando finalmente Tróia foi saqueada, Ulisses sempre mostrou ser magnâni­mo com os prisioneiros, prometendo que seriam tratados com justiça, caso se rendessem pacificamente.

Apesar de seus sucessos durante essa guerra, Ulisses não teve muita sorte em seu regresso para Ítaca. Durante dez anos, ele e seus companheiros foram forçados a vagar, levados pelos ventos e enfrentando adversários estranhos e perigosos no decorrer do percur­so e nas terras que visitaram.

Dentre esses lugares, havia a ilha dos Comedores de Lótus, onde os seus homens foram drogados e perde­ram a memória; a ilha dos Ciclopes, onde os ferozes gigantes de um olho só, filhos do deus ferreiro Hefesto, ameaçaram matá-los; e a Ilha da Aurora, terra da feiticeira Circe, onde os seus homens foram transformados em porcos. Ele teve de conduzir o seu navio entre os terríveis monstros marinhos Cila e Caribdes e escapar das sereias que matavam os marinheiros com o seu canto.

Ao longo de todas essas provas, ele agiu com previsão, inteligência, estratégia e astú­cia, impelido pela sua determinação de alcançar o seu lar, apesar das oportunidades de amor, riqueza e poder que se apresentaram duran­te essa sua viagem.

Ulisses, o Rei de Espadas, é a imagem das mais impressionantes habilidades estratégicas da mente humana. De todos os heróis da mitologia grega, Ulisses é o mais brilhante e o mais criativo, apesar de nem sempre ser honesto, pois seus dons intelectuais o tornaram o mais talentoso dos mentirosos. Mas a sua astúcia não era maliciosa, ele sempre a usava a serviço dos princípios que tinha como sagrados - o triunfo sobre os troianos e a santidade de sua terra natal, sua esposa c seu filho Telêmaco. O Rei de Espadas é um homem de princípios, mesmo que às vezes não coincidissem com os dos ho­mens em geral. Ulisses fez muitos inimigos pois, muitas vezes, os seus princípios não condiziam com a situação que ele enfrentava com seus companheiros.

A figura do Rei de Espadas tem altos ideais sobre a decência, a bondade e a imparcialidade, e o seu comportamento para com os troianos derrotados reflete bem esses princípios. Mas a sua bondade era fria e não decorria de uma verdadeira resposta emocional adqui­rida. Muitas mulheres se apaixonaram por ele, mas a sua única ma­neira de correspondê-las era sexualmente. Portanto, ele nos chega por meio da Mitologia como um brilhante estrategista, um negociante inteligente e manipulador, um homem bom com altos ideais e uma figura fria sem qualquer empatia real por outros indivíduos. Ulisses é a imagem do viandante, não no sentido do Cavaleiro de Espadas que sai em busca de aventuras, mas no sentido de que ele não está arrai­gado ao coração c, portanto, não está arraigado ao relacionamento com outras pessoas. Suas andanças podem ser interpretadas como uma espécie de homem sem teto, uma falta de ligação que é mais do que compensada por sua decência e inteligência, mas que o isola de seus companheiros e decepciona aqueles que o amam.

O Rei de Espadas incorpora a qualidade de liderança intelectual que é atraente e dinâmica no mundo. A sua ambivalência está em sua tendência à dissociação do sentimento que pode fazer com que pareça um tanto superficial c indigno de confiança. Sem dúvida ele é um homem de altos ideais e, no entanto, também é uma pessoa instá­vel que muda de aliança de acordo com os humores da situação para poder preservar a diplomacia e a cooperação. Apesar de contraditó­rio, em termos, os dois aspectos - de nobreza e de astúcia - da sua natureza surgem da mesma raiz idealista.

No sentido divinatório, quando o Rei de Espadas aparece em uma abertura de cartas, ele anuncia que chegou o momento de encontrar em nós mesmos o dom ambivalente da liderança intelectual e da estratégia. A proeza intelectual e as ideias inspiradas sobre como desenvolvê-las no futuro são qualidades que ele possui em abundân­cia. Algumas vezes essa figura pode aparecer na vida das pessoas na forma de um indivíduo notável, graças aos seus dons mentais e a sua capacidade de promover mudanças no mundo. Mas, se esse indivíduo entrar em nosso ambiente, ele pode ser visto como um ca­talisador por meio do qual podemos entrar em contato com essa di­mensão de nós mesmos.


O Seis de Ouros
A carta Seis de Ouros retrata Dédalo respeitosamente ajoelhado, suas mãos cruzadas em um gesto de súplica. A sua frente, sentado em um trono dourado está o rei Minos de Creta - um homem maduro de barba e cabelos pretos e tez morena, vestido em púrpura real e portando uma coroa dourada. Em suas mãos, o rei segura seis pentáculos dourados, que oferece a Dédalo em sinal de futuro apadrinhamento. Atrás do artesão ajoelhado e do trono real, os muros do palácio de Minos decorados com frisos pintados representando dançarinos e touros e as bordas com cachos de uva.

O Seis de Ouros é uma carta harmoniosa que reflete a renovação da fé que aqui acompanha a fuga bem-sucedida de Dédalo para Creta e o favorecimento da proteção do poderoso e rico rei Minos. Depois da catástrofe do Cinco de Ouros e suas implicações de perdas tanto de bens materiais quanto da confiança na vida e nas próprias habilidades, o Seis de Ouros promete uma recuperação proporcionada pela generosidade e pela caridade das pessoas.

O clima dessa carta não diz respeito a recompensas por trabalhos realizados, mas à benevolência. Às vezes, podemos contar com retribuições da própria vida, que nem sempre é cruel e que recompensa o indivíduo pelos seus grandes esforços.

Essa experiência da generosidade da vida surge do interior do próprio indivíduo e não da caridade de outras pessoas, pois descobrimos que é possível dar incondicionalmente, apesar dos nossos reveses e perdas.

Portanto, o significado mais profundo do Seis de Ouros toca em uma importante faceta da criação manifestada, porque nem tudo é consequência da vontade consciente ou do erro. As vezes, a boa sorte cruza o nosso caminho e, apesar de não podermos planejá-la ou esperá-la, geralmente ela sobre¬vêm no momento em que as nossas posses estão no mais baixo nível.

Dédalo não é uma pessoa totalmente ruim, apesar do crime que cometeu. Ele é um homem ambivalente, capaz de proporcionar tanto muitos benefícios quanto malefícios e, portanto, a vida não o julga da mesma forma que a sociedade o julgaria aqui representada pela ira dos atenienses. Ele sofreu por seu crime pela pobreza, pelo exílio e pela humilhação, e agora um novo ciclo se inicia, anunciado por um desses golpes de boa sorte que se apresenta na forma de bondade c de generosidade as nossas ou as dos outros.

No sentido divinatório, o Seis de Ouros prevê uma situação que promete dinheiro ou posses a ser compartilhados e dos quais o indivíduo será chamado a oferecer generosidade ou será objeto dela. E, assim, a fé na vida e na própria capacidade é readquirida.


O Hierofante
A carta do Hierofante retrata uma estranha figura: um Centauro, com o tronco, os braços e a cabeça de homem e o corpo de um cavalo. Seus longos cabelos e barba castanhos e seu rosto maduro e benigno sugerem um sacerdote ou um professor. Sua mão direita está levantada em um antigo sinal de bênção, enquanto a esquerda segura um pergaminho. Aos seus dois lados, uma coluna de pedra. Atrás dele é vista a rocha bruta da caverna que é tanto a sua morada como o seu templo. Uma luz é dirigida sobre a sua cabeça coroada por meio de uma abertura no teto da caverna.

Aqui encontramos Quiron, rei dos Centauros, curador, sacerdote e sábio educador de todos os jovens heróis da Mitologia. O próprio nascimento de Quiron foi um verdadeiro mistério, pois ele nasceu da união de Ixion, - filho do deus da guerra, Ares -, com uma nuvem que Zeus formou à semelhança de sua esposa Hera, para impedir que Ixion fizesse amor com a própria deusa.

O centauro foi educado por Apolo, o deus-Sol, e Ártemis, a deusa da Lua, e, graças à sua grande sabedoria e espiritualidade, ele foi eleito rei dos centauros, cuja tarefa era incutir nos jovens príncipes gregos os valores espiri­tuais e o respeito pela lei divina que eles deviam aprender antes mes­mo das artes de reinar e das proezas das armas.

Quiron também era um grande curador e conhecia o segredo das ervas e das plantas. Mas ele era incapaz de curar a si mesmo. Um dia, seu amigo Héracles visitou-o em sua caverna; o herói grego acabara de matar Hidra com as suas nove cabeças venenosas. Aci­dentalmente, Héracles arranhou o Centauro na coxa com uma de suas flechas que haviam sido embebidas no sangue do monstro. Esse sangue era puro veneno e todo o conhecimento que Quiron possuía não conseguiu fazer com que ele o extraísse da ferida. Como era imortal, ele não podia morrer e, assim, foi condenado a conviver com a dor, sacrificando a felicidade do mundo e dedicando-se a ensinar a sabedoria espiritual.

No sentido interior, Quiron, o Hierofante, é a nossa parte que invoca o espírito para poder compreender o que nos é exigido por Deus. Ele é o nosso educador espiritual interno, o sacerdote que estabelece uma ligação entre a consciência terrena e o conheci­mento intuitivo da lei de Deus. O mundo de Perséfone, a Sacerdoti­sa, é sombrio e fugaz, e não pode ser compreendido pelo intelecto, mas o mundo de Quiron pode ser elucidado e interpretado pela men­te.

A palavra antiga pontifex para sacerdote significa "fazedor de pontes", pois o papel do sacerdote, tanto dentro quanto fora de nós', é servir de pai espiritual, estabelecendo um relacionamento entre o homem e Deus e tornando clara a natureza das leis pelas quais de­vemos viver para estarmos em relação correta com o divino. As leis do Imperador, que incorporam o princípio do pai na Terra, dizem respeito ao comportamento correto no mundo.

Mas as leis do Hierofante se referem ao comportamento correto aos olhos de Deus. Entretanto, Quiron não simboliza qualquer sistema religioso ortodo­xo. Ele é uma criatura selvagem, meio homem e meio animal, e o seu templo não tem qualquer manipulação humana, porém, mais exa-tamente, é uma caverna em uma montanha.

Assim, a lei espiritual que ele transmite não é uma lei coletiva baseada em dogmas, mas sim, individual e somente pode ser percebida por meio do nosso sa­cerdote interior. Portanto, pessoas diferentes experimentam Deus de uma maneira diferente, e atingimos o nosso entendimento espiri­tual de acordo com o nosso entendimento particular do que "Deus" possa realmente significar.

A ferida de Quíron faz com que ele seja o Curador Ferido, aquele que, por meio de sua própria dor, pode compreender e apreciar a dor alheia e, portanto, pode enxergar muito além do que aqueles que estão cegamente satisfeitos. E então Quíron, o Hierofante, repre­senta a nossa parte ferida em que algum problema insolúvel ou uma limitação qualquer nos aprofunda e nos torna misericordiosos quan­do, ao contrário, seríamos meras superficialidades de bondade sem qualquer sentido real do que possa significar. O verdadeiro sacerdo­te está aberto à dor e aos desejos do mundo, porque, ele mesmo, sofre.

A imagem de Quíron nos liga ao valor das limitações insuperáveis ou das feridas dentro de nós que, apesar de causarem sofrimento na vida cotidiana, assim mesmo nos obrigam a questionar e a abrir o caminho para uma maior compreensão das leis superiores da vida. Esse paradoxo também é sugerido pelo próprio Centauro, pois, sen­do metade deus e metade cavalo, ele se utiliza tanto do instinto quan­to do espírito, além de conter uma dualidade que faz parte de nossa condição humana. O homem não é totalmente animal nem totalmen­te divino, mas uma mistura de ambos, e deve aprender a conviver com os dois. Dessa mescla, surge a sabedoria do Centauro, que par­ticipa tanto do conhecimento de Deus quanto do conhecimento da lei natural - Deus manifestando-se no mundo das formas.

No sentido divinatório, quando Quíron, o Hierofante, aparece em uma abertura de cartas, ele implica que o indivíduo começará a, ativamente, procurar respostas de nível filosófico. Isso pode ocorrer como o estudo de uma filosofia particular ou de um sistema de crença, ou ainda como o compromisso profundo de busca por um significado para a vida. O Hierofante pode aparecer na forma de um analista, de um psicoterapeuta, de um sacerdote ou de um mentor espiritual na vida exterior, para quem nos voltamos à procura de consolo e ajuda. O Louco, então, emerge de sua descoberta do Submundo e dos po­deres ocultos do subconsciente à procura de respostas para o enig­ma de si mesmo e para o significado de sua vida. Ao encontrar-se com o Hierofante, ele descobre a sua parte que pode começar a formular e a expressar uma filosofia pessoal e uma visão individual do espírito que o guiam ao deixar para trás a sua infância, preparando-se para enfrentar os desafios da vida.


O Dois de Paus
A carta Dois de Paus retrata o jovem Jasão em pé e pensativo diante da caverna do Centauro Quíron, antes de se dirigir ao encontro com seu tio para reivindicar a sua herança. Quíron é apenas visível na escuridão da caverna. Jasão veste uma túnica escarlate e segura duas tochas acesas nas mãos.

O Dois de Paus, como os Dois de todos os Arcanos Menores, polariza a energia primitiva do As e, aqui, essa polarização implica o aventureiro e a sua meta recem-estabelecida. O nervosismo e o poder ainda indefinidos do Ás começaram a aglutinar-se para formar uma visão particular, apesar de ainda não ser claro como essa visão ou meta poderá ser alcançada. Jasão nada sabia a respeito do Velocino de Ouro, mas agora ele já sabe, porque Quíron contou-lhe a sua história c do seu direito ao trono de Iolkos. Aqui, o sentimento de potencial cristalizou-se em algo definido, mesmo que a verdadeira aventura criativa do futuro de Jasão - a busca do Velocino de Ouro - somente tenha surgido depois que ele empreendeu o primeiro está­gio de sua jornada.

É assim que começam todos os empreendimentos: um pouco de cada vez. Uma ideia leva a outra e, muitas vezes, a primeira não é a derradeira, mas simplesmente um prelúdio. Entretanto, o prelúdio é suficiente para nos impulsionar para fora do santuário da caverna, cm razão do sentido de que poderíamos ter mais do que temos na realidade, ou sermos mais do que somos. A jornada de Jasão para Iolkos, o lugar de sua herança por direito, é entremeada de perigos, pois ele tem um inimigo que prazerosamente lhe tiraria a vida. Ele não pode prever o resultado nem tampouco se conseguirá ou fracas­sará em seu intento. Mas ele acredita em sua visão o suficiente para tentar e segura firmemente as tochas que simbolizam o fogo da ima­ginação. Do contrário, ele - ou nós - permaneceria tranquilo, mas para sempre reprimido cm sua caverna; seguro, mas nunca realizan­do os potenciais que são seus por direito; por outro lado, esses poten­ciais precisam de visão para que possam ser concretizados.

No sentido divinatório, o Dois de Paus anuncia a formulação de uma nova meta, ideia, objetivo ou projeto criativo. Essa nova ideia pode não ser a forma final do futuro, mas tem muito potencial e é suficientemente atrativa para incentivar o indivíduo a sair dos seus presentes limites, impulsionando-o para uma nova iniciativa. Aqui tudo depende da coragem de o indivíduo assumir a nova ideia e ter fé na­quela força criativa invisível que gerou a visão desse novo caminho.


As Cartas Persistentes

Algumas cartas selecionadas ao acaso neste dia, o do primeiro contato com cartas de tarô neste sentido, o de lê-las, seguem persistindo repetidamente em jogos atuais, um ano depois deste encontro. O que a cigana diria disso?



O Dez de Paus
A carta Dez de Paus retrata Jasão sentado diante dos destroços do navio Argo, totalmente exausto. Ele voltou vitorioso para Iolkos e está com um traje real vermelho e uma coroa dourada; aos seus pés, o Velocino de Ouro. Ele está curvado pelo peso das dez tochas flamejantes, distribuídas em suas costas e seus ombros.

O Dez de Paus retrata um estado de opressão. Jasão cumpriu o que havia planejado fazer, mas, ao final da história, ele é uma figura triste, sobrecarregada e esmagada pelas preocupações, enquanto o navio Argo, uma vez glorioso, o transportador de heróis, está em ruínas e apodrecendo.

A princípio é difícil entender por que essa lenda de visão e de feitos heróicos devesse culminar em uma ima­gem tão pesada e triste. Mas essa última carta do naipe de Paus revela algo importante a respeito da imaginação criativa: ela pode não funcionar mais quando fica presa sob o peso das responsabilida­des materiais.
Essa dura lição ocorre a muitas pessoas que se propõem a iniciar um negócio ou objetivam um sucesso criativo. Com o passar do tem­po e com o crescimento e a solidez do empreendimento, o espírito de aventura e o entusiasmo do começo parecem sumir. No processo de atingir a sua meta e recuperar o seu trono, Jasão deixou de valorizar os elementos imprevisíveis, como aqueles que Medeia personifica, e dessa maneira ele "se vendeu", esquecendo-se da ousadia e da de­senvoltura que primeiro o empurraram para a aventura. O poder volátil da imaginação não se deixa prender às formas pesadas c estru­turadas. Frequentemente, o tédio e a depressão acompanham a inte­gralidade de um trabalho criativo, pois, enquanto a tensão do esforço empenhado cm ideias criativas gera mais ideias, suas concretizações finais significam que a imaginação não pode mais se expressar livre­mente.

Portanto, a imaginação precisa de campos novos e o indivíduo que, como Jasão, se agarra às formas que construiu pode deparar-se com uma certa opressão e exaustão sem razões aparentes. Esse é o momento de abrir mão de alguma defesa e segurança para que a imaginação possa ser despertada com uma nova ideia, uma nova meta e uma nova aventura.

No sentido divinatório, o Dez de Paus sugere que o indivíduo está sobrecarregado e oprimido por ter assumido responsabilidades em demasia e além de sua capacidade de suportar. A imaginação foi sufocada pelas excessivas preocupações materiais e parte daquela jovem ousadia c disposição simplesmente se perdeu. E preciso re­nunciar a certas coisas para que o processo criativo possa ser reno­vado e um novo ciclo recomece.


O Cavaleiro de Paus
A carta do Cavaleiro de Paus retrata um exuberante jovem montado em um cavalo alado trajando uma túnica vermelha e uma armadura e um elmo dourados. Uma aljava de flechas em seu ombro e uma tocha flamejante em sua mão. O cavalo branco está voando enquanto embaixo, na terra, encontra-se um monstro que o jovem matou com uma flecha. O monstro tem cabeça de leão, corpo de carneiro e cauda de serpente.

Na carta do Cavaleiro de Paus, deparamo-nos com a volátil, mutá­vel e efervescente dimensão do elemento Fogo, que está em constante movimento e eternamente buscando novos desafios. Ele é encenado pela figura mitológica do herói Beierofonte, que domou o cavalo alado Pégaso, matou a monstruosa Quimera e, em seguida, foi arruinado por sua própria arrogância, que o levou a tentar voar para o Monte Olimpo, a morada dos deuses.

Beierofonte teve de fugir de Corinto, sua terra natal, por haver matado acidentalmente o seu próprio irmão Belero, e procurou santuá­rio na corte do rei Preto de Tirinto. Mas a esposa desse rei apaixonou-se pelo impetuoso e um tanto ambíguo rapaz e, ao ser rejeitada pelo jovem, o acusou diante do rei Preto de tentar seduzi-la. Acreditando na história da esposa, o rei decidiu destruí-lo.

Beierofonte foi então enviado em uma aparente missão fatal - a destruição da Quimera, um monstro que soprava fogo. Mas o jovem teve a sorte de ser ajudado por um adivinho que o instruiu cm como capturar e domar Pégaso. Beierofonte encontrou o cavalo e jogou sobre a sua cabeça uma rédea dourada que Atena lhe havia dado. Ele então venceu a Quimera voando sobre ela no dorso de Pégaso, enchendo-a de fle­chas e arremessando a sua lança, em cuja ponta havia colocado uma bola de chumbo, na boca do monstro; o fogo que a Quimera soprava derreteu o chumbo que, líquido, escorreu em sua garganta, matando-a.

Em vez de demonstrar a apropriada modéstia com respeito ao seu feito, Beierofonte tornou-se arrogante e prepotente. No auge de sua sorte, com presunção, tentou alcançar o Olimpo como se fosse imortal. Furioso, Zeus enviou uma vespa que picou Pégaso por baixo da cauda, fazendo-o empinar, desmontando Beierofonte, que despencou vergonhosamente para a terra.

Beierofonte, o Cavaleiro de Paus, é a imagem do desejo por novas e mais gloriosas aventuras. Essa figura ambivalente, muito criativa e desprendida da realidade, pois, apesar de ser a primeira a pressentir coisas novas, assim como a primeira a enfrentar um de­safio, por mais difícil que seja, também é a nossa tendência à presun­ção e a uma espécie de pretensão de que a boa sorte deva ser pro­porcionada pela vida, independentemente de quem sejamos ou do que façamos.
O Cavaleiro de Paus é um sedutor - as mulheres tendem a amá-lo, tal como a esposa do mitológico rei Preto -, mas ele não é confiável, pois nenhuma mulher consegue segurá-lo quando uma nova aventu­ra se apresenta. Ele é intuitivo c imaginativo, e, em termos moder­nos, poderíamos até chamá-lo de tendencioso, pois é o primeiro a assumir uma nova ideia, uma nova moda, um novo estilo de vida, bem antes de o restante da humanidade se conscientizar do valor dessa novidade.

O Cavaleiro de Paus não é um seguidor, como também não é um líder, pois é autocentrado demais e facilmente entediado para assu­mir a responsabilidade de dirigir outras pessoas. Como Dom Quixote do famoso épico de Cervantes, ele ataca moinhos de vento e assume causas ou desafios que podem não ser realmente relevantes, mas a respeito dos quais está preparado a fazer um enorme alarde só por­que parecem excitantes e o colocarão em destaque, como também o manterão ocupado durante um certo tempo.

O Cavaleiro de Paus é uma figura agradável e até adorável, e tendemos a perdoá-lo constantemente graças à sua natural positivi­dade, seu fascínio, sua ingenuidade e suas boas intenções. Mas, como dizem, o caminho para o inferno está cheio de boas intenções, e nem todas as intenções dessa figura são realmente concretizadas. Ele está constantemente engendrando novas ideias que podem ser filtradas, consideradas e processadas por meio de uma visão mais realista, seja pelo próprio indivíduo ou por outra pessoa mais em contato com a realidade do que esse fogoso e volátil Cavaleiro. Então, a sua força pode ser apreciada enquanto a sua fraqueza é tornada menos preju­dicial pela fria consideração dos fatos.

No sentido divinatório, quando o Cavaleiro de Paus aparece em uma abertura de cartas, ele anuncia que chegou o tempo para o indivíduo desenvolver as voláteis, exuberantes e aventurosas quali­dades incorporadas na figura de Belerofonte.

Muitas vezes, em nível divinatório, o Cavaleiro de Paus manifesta-se como uma mudança de residência, porque o indivíduo repentinamente se sente oprimido pelo ambiente no qual se encontra e sai à procura de campos mais amplos e verdes.

Algumas vezes o Cavaleiro de Paus penetra na vida das pessoas como um jovem encantador, interessante e um tan­to irresponsável, cheio de ideias novas e inspiradoras, mas que deve ser tratado com cuidado para que ele não nos leve a possíveis prejuí­zos. Se um desses indivíduos entrar em nossa esfera de relaciona­mentos, isso deve ser visto como um aviso de que essas qualidades estão tentando emergir de dentro de nós mesmos.


O Oito de Espadas
A carta Oito de Espadas retrata Orestes em uma postura de medo, com suas mãos levantadas tentando afastar o seu destino. Ele está cercado por um anel de oito espadas fincadas no chão. À sua esquerda, Apolo olha para ele de modo severo e zangado. À sua direita, as três Fúrias vestidas de preto, com rostos brancos e feios, e asas de morcego. Ao longe, nuvens ameaçadoras sobre picos nevados.

O Oito de Espadas retrata uma situação de servidão em função do medo. Diferentemente da paralisia apresentada pela carta Dois de Espadas, essa servidão envolve um total conhecimento da situa­ção e as prováveis consequências de qualquer escolha.

Aqui Ores­tes sabe muito bem o que acontecerá se assassinar a sua mãe ou se ele se recusar a fazê-lo, pois, qualquer que seja a sua escolha, sairá perdendo. Assim, ele fica paralisado tentando afastar de si o mo­mento da escolha. Apesar de as escolhas não serem geralmente tão sutis quanto as de Orestes, entretanto o Oito de Espadas reflete uma situação de indecisão paralisante. Parle do desconforto surge da per­cepção do indivíduo quanto à exata maneira de como chegou a essa situação, mas já é tarde para remorsos ou para retroceder.

Diferen­temente também da cegueira da carta Dois de Espadas, o Oito de Espadas retrata a consciência dolorosa de nossa parte na criação de toda a atual confusão. Esse é o momento anterior a difícil escolha, exacerbado pela realização desagradável de que nós mesmos a pro­vocamos.

Existem muitas situações típicas na vida, nas quais surgem a ser­vidão e a paralisia do Oito de Espadas. Urna das situações mais características é o problema do indivíduo que esteve manipulando duas pessoas uma contra a outra - uma esposa e um amante, um marido c um pai, dois amigos -, tentando adiar a decisão de uma escolha ou de um compromisso.

A tentativa de manter oculto o fato um do outro pode fazer com que a tomada de decisão possa ser mantida em aguardo durante um certo tempo, mas cedo ou tarde haverá uma confrontação e consequentemente o momento de cho­que, quando se descobre que esse subterfúgio somente piorou a si­tuação.

Desse modo, o Oito de Espadas surge naturalmente do Sete de Espadas, como se a astúcia e a sutileza, apesar de utilizadas por bons motivos e necessárias no momento, tivessem criado a própria armadilha. Então, devemos aceitar a responsabilidade por todo o ocor­rido, procurar compreender o que realmente desejamos e agir ime­diata e definitivamente. Dessa maneira, uma solução é possível.

No sentido divinatório, o Oito de Espadas anuncia uma situação pela qual o indivíduo é impossibilitado de agir por causa do medo das consequências. Uma tomada de decisão é necessária, mas qualquer que seja a escolha, provocará problemas. Existe a conscientização de que o dilema foi causado pelo próprio indivíduo, pois houve um longo passado de recusa, duplicidade, cegueira e medo da confronta­ção, muitas vezes para "evitar ferir" alguém, que sempre está presen­te no impasse. É importante enfrentar honestamente o nosso próprio envolvimento no problema.


O Ás de Ouros
A carta do Ás de Ouros retrata um homem moreno e forte com longos cabelos encaracolados e uma cauda de peixe, emergindo das profundezas do mar e erguendo um grande pentáculo dourado. Ao seu redor, rochedos ricamente recobertos de vinhas com cachos de uva amadurecendo. A distância, um cenário de verdes e férteis colinas rodeando uma baía.

Aqui nos deparamos com o deus Poseidon, o qual encontramos na carta da Torre dos Arcanos Maiores. Poseidon era um dos filhos de Cronos e Réa e participou do destino de seus irmãos e irmãs, sendo engolido pelo pai ao nascer. Mas a bebida que Zeus serviu a Cronos fez com que ele regurgitasse todos os filhos que havia engolido. Após a vitória sobre Cronos, a herança paterna foi dividida em três partes: Zeus tomou posse dos vastos céus; Hades, do sombrio Submundo; e Poseidon, dos mares, lagos, rios e de toda a superfície da Terra, visto que ela era apoiada sobre as suas águas e ele podia fazê-la tremer à vontade. Ele ficou famoso entre os deuses pelo seu anseio por terras e entrava em conflito com muitos deles por tentar apossar-se de ilhas e partes da costa da Grécia.

Poseidon era um deus da fertilidade, marido da grande Mãe-Terra e Senhor do Universo físico. Ele era chamado de "agitador da Terra" e venerado na forma de um touro, um grande animal preto com olhos flamejantes, que vivia nas entranhas da Terra; com suas pisoteadas ele fazia com que as montanhas se movessem e os mares inundassem a Terra. Portanto, Poseidon é uma das forças primitivas da natureza e, no Ás de Ouros, ele mostra o seu poder como o impulso de uma nova energia para a criação material.

Em contraste com o Ás de Paus, que se ergue como o nascimento de uma nova visão criativa, o Ás de Ouros volta a sua imensa potência criativa para a Terra, e essa emergente necessidade de concretizar c criar no mundo manifesto é aquela que dá suporte às nossas ambições materiais. O indivíduo que ambiciona riquezas e faz as coisas acontecerem em nível material experimenta algo do poder desse antigo deus terreno e o Ás de Ouros anuncia a erupção de uma nova ambição para a criação e o sucesso material.

No sentido divinatório, o Ás de Ouros prevê a possibilidade de uma realização material porque, agora, a energia primitiva para esse trabalho está disponível ao indivíduo. Muitas vezes dinheiro vêm na forma de uma herança ou de qualquer outra fonte, acompanhado da engenhosidade e da persistência em utilizar esses recursos efetiva e eficientemente.